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Em Beaune, o tempo é norma, a terra é texto, e o vinho é interpretação
Entre a pedra e a vinha, entre o silêncio das caves e o rumor dos mercados, há um saber que não se escreve — amadurece. Por Glênio S Guedes (advogado) I. Uma cidade que não se oferece — se revela Não há pressa em Beaune. E isso, por si só, já constitui uma forma de ensinamento. Outras cidades se mostram; Beaune, ao contrário, se deixa compreender lentamente, como se exigisse do visitante uma disposição que o mundo contemporâneo desaprendeu: a paciência interpretativa. Situada
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5 de abr.3 min de leitura
Nem terra, nem mar: o colapso das categorias clássicas da geopolítica
Entre terra e mar, entre profundidade e circulação,o poder contemporâneo não escolhe lados:ele atravessa. Por Glênio S Guedes ( advogado ) I. A persistência de uma pergunta mal formulada Há perguntas que sobrevivem não por sua pertinência, mas por sua elegância. Entre elas, figura a velha indagação geopolítica: o que funda o poder — a terra ou o mar? A resposta, por séculos, pareceu oscilar entre duas certezas igualmente sedutoras. A primeira, de inclinação determinista, via
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5 de abr.4 min de leitura
Entre a negação e a dependência: o IFRS no inconsciente do Direito Tributário
“O direito não é um sistema fechado, mas uma experiência.”— Miguel Reale Por Glênio S Guedes ( advogado ) I. Introdução: o paradoxo inaugural O Direito Tributário brasileiro afirma, com a segurança própria das construções normativas que aspiram à autonomia, que a contabilidade não o vincula. A Lei nº 12.973/2014, ao proclamar a neutralidade dos novos métodos e critérios contábeis, parece erigir uma muralha entre o mundo do balanço e o mundo da incidência. De um lado, a lingua
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4 de abr.5 min de leitura
Prende-se o sintoma, absolve-se a causa: a misoginia e o fetiche penal
“Quando o Direito Penal chega primeiro, é sinal de que todos os outros direitos falharam.” Por Glênio S Guedes ( advogado ) 1. Introdução: a tentação punitiva Há, no espírito do nosso tempo, uma inclinação quase automática a converter problemas sociais complexos em tipos penais. Diante da dor legítima, da indignação moral e da urgência política, a resposta institucional parece seguir um roteiro previsível: nomeia-se o fenômeno, tipifica-se a conduta, agrava-se a pena — e, com
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2 de abr.4 min de leitura
Medicina Geriátrica e Direito do Idoso: a arquitetura da longevidade digna
“Não é o tempo que envelhece o homem — é a forma como a sociedade decide reconhecê-lo.” Por Glênio S Guedes ( advogado ) I. O Brasil envelhecido: um fato, não uma hipótese O Brasil atravessa uma inflexão histórica silenciosa, porém decisiva: o envelhecimento deixou de ser projeção e tornou-se realidade estrutural. Hoje, mais de 15% da população possui mais de 60 anos, superando a proporção de jovens, e esse contingente cresce em ritmo acelerado, com tendência de atingir um te
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29 de mar.4 min de leitura
O ponto cego: a falha que sustenta todo o conhecimento
“O que não vemos é precisamente o que torna possível ver.” Por Glênio S Guedes (advogado) I. Abertura: a invisibilidade constitutiva Há, entre as conquistas mais celebradas do espírito humano, uma que se distingue não apenas por sua eficácia, mas por sua ambiguidade: a ciência moderna. Capaz de sondar os confins do cosmos, de decifrar a estrutura íntima da matéria e de modelar, com precisão crescente, os sistemas mais complexos, ela se apresenta, à primeira vista, como a form
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22 de mar.6 min de leitura
O Direito como guardião da exceção cósmica ou técnica de prolongamento civilizacional?
Entre a raridade da vida inteligente e a fragilidade das civilizações tecnológicas Glênio S Guedes ( advogado ) Perguntas há que atravessam milênios como se fossem feitas ontem, e respostas há que, quando começam a despontar, revelam menos um alívio do espírito do que um agravamento da responsabilidade humana. A indagação acerca da existência de vida fora da Terra pertence a esse raro conjunto de problemas cuja persistência não decorre da ignorância, mas da profundidade. Dura
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21 de mar.4 min de leitura
O jurista de 2026 não é mais o intérprete da lei —é o arquiteto de riscos em um mundo fragmentado
“Vivemos não a ausência de ordem, mas o excesso de ordens incompatíveis.” Por Glênio S Guedes ( advogado ) Há convir em que, no momento atual, a experiência jurídica deixa de ser cumulativa e passa a ser transformativa. O ano de 2026 parece marcar precisamente esse limiar. Os dados do Global Disputes Forecast não apenas enumeram riscos: eles redesenham o próprio campo de atuação do jurista. Quando tecnologia, geopolítica e tributação surgem como vetores dominantes de litigi
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21 de mar.5 min de leitura
Não impedir é agir: a lição penal de um “zé-ninguém” russo
Quando a omissão equivale ao resultado Por Glênio S Guedes ( advogado ) O Direito Penal precisa abandonar, por um instante, o conforto das abstrações e mirar, sem pestanejar, o espelho da realidade. Não para julgá-la — pois isso já o faz diariamente —, mas para reconhecer-se nela. E, quem sabe, corar. O documentário que nos chega sob o título sugestivo de “Mr. Nobody Against Putin” não é apenas uma peça cinematográfica: é um caso concreto em estado bruto, uma espécie de labor
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17 de mar.4 min de leitura
O dia em que quatro médicos avaliaram uma faculdade de Direito
Um exercício de transdisciplinaridade institucional: o que os juristas poderiam aprender com os quatro gigantes da medicina “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.”— Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) I — Uma visita improvável “É melhor uma cabeça bem feita que uma cabeça bem cheia.”— Michel de Montaigne, Essais Imaginemos um pequeno experimento intelectual — desses que exigem menos laboratório do que imaginação dis
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14 de mar.4 min de leitura
Se Osler entrasse numa faculdade de medicina hoje, pediria um paciente ou um login?
“Study the patient, not the disease.”— William Osler Em homenagem ao médico polímata Marco Antônio Barrozo Madeira Por Glênio S Guedes ( advogado ) I — O retrato na parede e a senha do sistema “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.”— Machado de Assis Há retratos que não envelhecem; apenas observam. Em muitas faculdades de medicina, pendurados em corredores discretos ou em salas de reunião de departamentos, figuram os semblantes austeros
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14 de mar.5 min de leitura
Juristas acreditam em conceitos como crianças acreditam em duendes
Warat e o senso comum teórico dos juristas no século XXI “Os conceitos jurídicos funcionam muitas vezes como mitos estabilizadores.”— Luis Alberto Warat Por Glênio Sabbad Guedes ( advogado ) 1. Uma ciência que raramente se interroga Há um traço curioso no universo jurídico. O Direito gosta de falar muito de si mesmo — de seus conceitos, de suas categorias, de suas classificações, de suas distinções — mas raramente se pergunta como pensa aquilo que pensa . O jurista costuma mo
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13 de mar.5 min de leitura
A Constituição contra o algoritmo: por que a Suíça decidiu salvar o dinheiro físico
“O direito não é uma criação artificial do Estado, mas uma experiência histórica da sociedade.”— Paolo Grossi Por Glênio S Guedes ( advogado ) I — Um pequeno gesto constitucional que chamou a atenção do mundo A notícia correu discretamente pelas agências internacionais, como tantas outras votações helvéticas que, para os suíços, são quase rotina cívica. Em março de 2026, os eleitores da Confederação decidiram inscrever na Constituição federal a preservação do dinheiro em espé
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9 de mar.4 min de leitura
O Direito precisa da maiêutica socrática — mas da maiêutica bem traduzida
“O que não sei, também não penso saber.”— Sócrates, Apologia Por Glênio S Guedes (advogado) 1. A arte esquecida de perguntar Vivemos numa época curiosa. Nunca se falou tanto e nunca se perguntou tão pouco. A abundância de respostas tornou-se, paradoxalmente, um dos sintomas mais claros da pobreza das perguntas. Opiniões circulam com uma rapidez admirável — e uma profundidade igualmente admirável, embora em sentido inverso. O fenômeno não poupa o Direito. Nos tribunais, nas sa
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8 de mar.4 min de leitura
Das Vantagens de Não Ter Cérebro : uma hipótese botânica para o Direito
Uma hipótese epistêmica sobre resiliência institucional, descentralização e biodiversidade normativa “Cada função essencial à vida precisa ser distribuída por todo o corpo e não se concentrar em órgãos especializados.”— Stefano Mancuso, Fitópolis Por Glênio S Guedes ( advogado ) Uma pequena suspeita Entre as muitas convicções que o homem cultiva sobre si mesmo, poucas são tão arraigadas quanto esta: a de que a inteligência se concentra. Desde a Antiguidade aprendemos a imagin
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5 de mar.4 min de leitura
A IA como um novo Renascimento: que conclusões tirar?
Reflexões a partir da primeira parte - capítulo 1 prelúdio - do Tratado de Inteligência Artificial y Derecho , de Juan Corvalán Por Glênio S Guedes ( advogado ) Há uma velha tendência humana — talvez inevitável — de anunciar novos renascimentos sempre que surge uma tecnologia particularmente impressionante. Foi assim com a imprensa, com a eletricidade, com o computador e, mais recentemente, com a internet. Agora chegou a vez da inteligência artificial. A pergunta, entretanto,
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4 de mar.5 min de leitura
Complexidade normativa e capital humano: o surgimento do jurista integrado
“Onde a norma se torna sistema, o saber deve tornar-se transversal.” Por Glênio S Guedes ( advogado ) Há reformas que alteram alíquotas. Outras que substituem tributos. Algumas, mais raras, modificam silenciosamente o próprio perfil humano necessário para que o sistema funcione. A reforma tributária brasileira, ao instituir um IVA dual e redesenhar o mecanismo de incidência sobre o consumo, pertence a esta última categoria. Ela não se limita a substituir siglas — PIS, Cofins,
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3 de mar.4 min de leitura
O Retorno do Ius na Era dos Princípios
A Romanidade Subterrânea do Constitucionalismo Contemporâneo Non ex regula ius sumatur, sed ex iure quod est regula fiat. — Cícero Por Glênio S Guedes ( advogado ) Há frases que atravessam os séculos com a serenidade das pedras antigas. A de Cícero é uma delas. Não se deve extrair o direito da regra; é do direito que a regra deve nascer. O leitor moderno, educado no culto da lei escrita, pode achar tal afirmação quase subversiva. Não estamos habituados a suspeitar da regra. E
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2 de mar.4 min de leitura
Autonomia Não é Solidão: O que Vygotsky Pode Ensinar aos Operadores do Direito
“Através dos outros, tornamo-nos nós mesmos.”— Lev S. Vygotsky Por Glênio S Guedes ( advogado ) I. Uma antropologia jurídica equivocada O imaginário jurídico ainda cultiva, não raro, uma figura de operador do Direito que decide a partir de si mesmo, como se o ato interpretativo fosse um gesto interior, quase solipsista, entre a consciência do intérprete e o texto normativo. O juiz seria, nessa concepção, uma inteligência isolada diante da lei; o advogado, um estrategista soli
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1 de mar.4 min de leitura
Formigueiros não interpretam: lembranças de uma Introdução à Ciência do Direito
(À memória acadêmica da Profª Beatriz Rosa Dutra, Universidade Gama Filho, Turma 1985–1988) “Excelente é o mestre que, ensinando, faz nascer no espírito do discípulo um grande desejo de aprender.” Por Glênio S Guedes ( advogado ) Há disciplinas que se esgotam no programa; outras, porém, prolongam-se na biografia intelectual de quem as viveu. A então denominada Introdução à Ciência do Direito pertence a esta segunda categoria. Nossa turma ingressou em 1985. Éramos jovens, ins
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27 de fev.3 min de leitura
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