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Nem terra, nem mar: o colapso das categorias clássicas da geopolítica

  • Foto do escritor: gleniosabbad
    gleniosabbad
  • 5 de abr.
  • 4 min de leitura
Entre terra e mar, entre profundidade e circulação,o poder contemporâneo não escolhe lados:ele atravessa.

Por Glênio S Guedes ( advogado )


I. A persistência de uma pergunta mal formulada


Há perguntas que sobrevivem não por sua pertinência, mas por sua elegância. Entre elas, figura a velha indagação geopolítica: o que funda o poder — a terra ou o mar?

A resposta, por séculos, pareceu oscilar entre duas certezas igualmente sedutoras. A primeira, de inclinação determinista, via na geografia uma espécie de destino mineral: quem domina a posição domina a história. A segunda, de matiz possibilista, confiava à técnica e à vontade política o poder de reescrever o espaço, como se o mapa fosse um rascunho à espera de correção.

Ambas, a seu tempo, pareceram suficientes. Hoje, porém, insistem em responder a um mundo que já não formula a mesma pergunta.


II. A geografia que insiste em não morrer


É cedo demais — e talvez sempre o seja — para decretar o fim da geografia.

Cerca de 80% do comércio mundial ainda percorre os mares. E esses mares, longe de constituírem uma superfície homogênea e indiferente, são atravessados por passagens estreitas, verdadeiros pontos de condensação do poder: Ormuz, Suez, Malaca, Bab-el-Mandeb, Bósforo, Gibraltar, Panamá.

Quando, em março de 2026, o Irã ameaçou fechar o Estreito de Ormuz, não foi apenas o petróleo que tremeu — foi a arquitetura inteira da circulação global que revelou sua fragilidade. Quando ataques no Mar Vermelho elevaram o risco no Bab-el-Mandeb, navios foram desviados, custos dispararam, cadeias logísticas se alongaram como elásticos prestes a romper.

Há, portanto, uma ironia que o determinismo saborearia: o mundo digital continua dependente de gargalos profundamente analógicos.


III. O equívoco do determinismo: geografia não é destino, é condição


Mas é precisamente nesse ponto que o determinismo, tão seguro de si, começa a tropeçar.

Se a posição fosse destino, bastaria possuir o estreito para possuir o poder. A realidade, porém, insiste em ser menos generosa com os esquemas teóricos.

O Egito controla Suez — mas não controla o comércio global. A Turquia controla o Bósforo — mas não determina os preços do trigo. O Irã ameaça Ormuz — mas não governa o sistema energético mundial.

O que falta?

Falta aquilo que o determinismo jamais soube nomear adequadamente: a transformação da posição em capacidade.

Não basta estar; é preciso operar. Não basta possuir; é preciso integrar.


IV. O equívoco do possibilismo: nem tudo é escolha


O possibilismo, por sua vez, responde com entusiasmo — talvez excessivo.

Dirá que a técnica resolve, que a estratégia supera, que o homem transforma o espaço. E, de fato, há evidências disso.

A China, vulnerável ao Estreito de Malaca — por onde transita parcela significativa de seu abastecimento energético — não se resigna. Investe em rotas terrestres, portos estrangeiros, corredores logísticos. A chamada Belt and Road Initiative não é outra coisa senão uma tentativa de reescrever a geografia sem deslocar um centímetro de terra.

E, no entanto, nem mesmo essa engenharia monumental elimina a vulnerabilidade original. Apenas a redistribui.

O possibilismo, assim, incorre em sua própria forma de ingenuidade: supõe liberdade onde há, no máximo, margem de manobra.


V. O mundo que desautoriza as categorias


O que os fatos recentes sugerem — com uma insistência quase didática — é que a oposição entre determinismo e possibilismo já não descreve adequadamente a realidade.

A guerra na Ucrânia recolocou o Bósforo e os estreitos turcos no centro da segurança alimentar global. O bloqueio — ainda que parcial — de fluxos de grãos afetou mercados inteiros, revelando como a geografia, longe de ser superada, permanece inscrita nas estruturas mais sensíveis da economia.

Os ataques no Mar Vermelho mostraram que não é necessário dominar o mar para perturbá-lo: basta interferir em seus pontos críticos. A circulação global, tão celebrada por sua fluidez, revelou-se dependente de passagens estreitas, quase frágeis em sua concentração.

E o Brasil — potência continental por excelência — oferece talvez o exemplo mais eloquente dessa nova condição: produz em escala, exporta em volume, mas depende, para fertilizar sua terra, de insumos que atravessam exatamente esses gargalos que não controla.

A profundidade territorial convive, assim, com a vulnerabilidade logística.


VI. A emergência dos fluxos: uma nova ontologia do poder


Se há algo que distingue o mundo contemporâneo não é a superação da geografia, mas sua reorganização.

O poder já não se mede apenas pela extensão do território, nem apenas pela posição estratégica. Ele se mede pela capacidade de controlar, proteger, desviar ou interromper fluxos.

Fluxos de energia. Fluxos de alimentos. Fluxos de dados. Fluxos de capitais. Fluxos logísticos.

Nesse cenário, o estreito deixa de ser apenas um ponto no mapa e passa a ser um nó em uma rede — e, como todo nó, vale não por si, mas pelas conexões que concentra.

A terra continua a oferecer profundidade: escala, recursos, densidade. O mar continua a oferecer circulação: mobilidade, conexão, alcance.

Mas o poder emerge da articulação entre ambos — ou, mais precisamente, da capacidade de fazer com que fluxos atravessem ambos de forma controlada.


VII. O discreto fracasso das teorias elegantes


Talvez o problema não esteja nas teorias clássicas, mas na expectativa que delas se teve.

O determinismo prometia previsibilidade; o possibilismo, liberdade.

O mundo contemporâneo oferece algo menos confortável: complexidade.

E a complexidade tem um hábito curioso: ela não refuta teorias — apenas as torna insuficientes.


VIII. Epílogo: a geografia que atravessa


Se fosse necessário reformular a velha pergunta, talvez não devêssemos mais indagar se o poder vem da terra ou do mar.

A pergunta mais adequada seria outra: quem controla aquilo que atravessa ambos?

Porque é nesse atravessamento — silencioso, contínuo, indispensável — que o poder contemporâneo se instala.

Não mais como atributo fixo do espaço, nem como triunfo absoluto da vontade, mas como função dinâmica da circulação.

A geografia não desapareceu; perdeu a ingenuidade. A técnica não libertou o mundo; apenas o tornou mais interdependente.

E o poder — esse antigo objeto de disputa — já não reside onde se pensava.

Entre terra e mar, entre profundidade e circulação, ele não escolhe lados.

Ele passa.

E, ao passar, decide.

 
 
 

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