A IA como um novo Renascimento: que conclusões tirar?
- gleniosabbad
- 4 de mar.
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Reflexões a partir da primeira parte - capítulo 1 prelúdio - do Tratado de Inteligência Artificial y Derecho, de Juan Corvalán
Por Glênio S Guedes ( advogado )
Há uma velha tendência humana — talvez inevitável — de anunciar novos renascimentos sempre que surge uma tecnologia particularmente impressionante. Foi assim com a imprensa, com a eletricidade, com o computador e, mais recentemente, com a internet. Agora chegou a vez da inteligência artificial.
A pergunta, entretanto, não é se a inteligência artificial é relevante — isso parece indiscutível —, mas se estamos realmente diante de algo comparável a um novo Renascimento.
Essa sugestão aparece com brilho literário no prelúdio do Tratado de Inteligencia Artificial y Derecho, de Juan Corvalán, onde o autor convida o leitor a refletir sobre a nova ecologia tecnológica que nos cerca. E, curiosamente, ele começa com uma imagem que poucos esperariam encontrar em um tratado sobre algoritmos: os ácaros domésticos.
Essa metáfora merece ser levada a sério.
1. Os ácaros invisíveis do mundo digital
Corvalán recorda que convivemos com milhões de ácaros microscópicos em colchões, livros e móveis. Não os vemos, mas eles estão ali, silenciosos e onipresentes.
A inteligência artificial — sugere ele — funciona de modo semelhante.
Vivemos rodeados de sistemas inteligentes:
mecanismos de recomendação
tradutores automáticos
sistemas de busca
algoritmos financeiros
filtros de redes sociais.
Esses sistemas são invisíveis, mas moldam profundamente a vida cotidiana.
Como os ácaros domésticos, os algoritmos habitam os espaços mais íntimos da vida contemporânea.
Essa imagem é particularmente feliz porque rompe com a caricatura cinematográfica da inteligência artificial como robôs metálicos ou máquinas conscientes. Na realidade, a IA moderna é sobretudo infraestrutura invisível.
2. O algoritmo: o manual de instruções do mundo digital
O prelúdio também recorda que a palavra “algoritmo” não designa nada de mágico.
Algoritmos são simplesmente sequências de regras ou instruções destinadas a resolver um problema.
A metáfora da máquina de refrigerantes é exemplar:
insere-se uma moeda
pressiona-se um botão
o produto é liberado.
Por trás dessa aparente simplicidade existe uma sequência lógica de instruções.
A inteligência artificial moderna não abandona essa lógica — apenas a torna mais sofisticada, combinando algoritmos com enormes quantidades de dados.
3. A lembrança medieval de Raimundo Lúlio
Uma das passagens mais sugestivas do prelúdio é a referência à célebre máquina combinatória de Raimundo Lúlio, pensador medieval do século XIII.
Lúlio imaginou um dispositivo formado por discos concêntricos contendo conceitos como:
poder
verdade
sabedoria.
Ao girar os discos, diferentes combinações eram produzidas, gerando novas proposições.
Jorge Luis Borges comentou essa invenção em um ensaio célebre, observando que a máquina de Lúlio era capaz de produzir combinações — mas não raciocínio verdadeiro.
A analogia com a inteligência artificial contemporânea é inevitável.
Assim como a máquina de Lúlio, os sistemas modernos de IA operam fundamentalmente por combinação e probabilidade. Eles calculam padrões possíveis dentro de vastos conjuntos de dados.
O que fazem não é pensar no sentido humano, mas produzir resultados plausíveis. São, em síntese, papagaios estocásticos!
4. IA não é inteligência humana
Aqui convém fazer uma distinção fundamental.
A expressão “inteligência artificial” pode induzir ao equívoco de que as máquinas possuem algo comparável à inteligência humana.
Na verdade, não possuem.
A inteligência humana envolve elementos que os algoritmos não possuem:
consciência
experiência subjetiva
intencionalidade
compreensão semântica profunda.
Os sistemas atuais funcionam de maneira diferente. Eles analisam grandes volumes de dados e identificam padrões estatísticos.
Em outras palavras:
IA é processamento probabilístico de informação, não pensamento consciente.
Essa diferença explica por que sistemas de IA podem:
traduzir textos
produzir respostas
classificar documentos
sem necessariamente compreender o conteúdo do que produzem.
5. Inteligência artificial não é consciência
Essa distinção conduz a outro ponto essencial: IA não é consciência.
Consciência envolve:
autoconsciência
experiência subjetiva
percepção do próprio estado mental.
Nada disso está presente nos sistemas atuais.
Modelos de linguagem produzem respostas plausíveis porque aprenderam padrões linguísticos em enormes bases de dados. Mas não têm:
sentimentos
intenções
entendimento fenomenológico.
Podem simular empatia, mas não experimentá-la.
6. As três grandes questões levantadas por Corvalán
O prelúdio formula três perguntas decisivas para compreender o fenômeno da inteligência artificial.
Podem as máquinas pensar?
Podem as máquinas imitar a inteligência humana?
Podem as máquinas substituir tarefas cognitivas humanas?
A primeira pergunta é filosófica e permanece aberta desde Alan Turing.
A segunda é parcialmente respondida pela prática tecnológica contemporânea: em certas tarefas específicas, as máquinas já imitam aspectos da inteligência humana.
A terceira é a mais concreta — e também a mais inquietante. Em muitos campos, máquinas já realizam atividades antes exclusivas do cérebro humano.
7. As metáforas da aceleração tecnológica
Para explicar esse fenômeno, Corvalán utiliza duas metáforas particularmente expressivas.
O Coiote e o Papa-léguas
No famoso desenho animado, o Coiote tenta capturar o veloz Papa-léguas.
Durante muito tempo, os humanos foram o Papa-léguas: mais rápidos cognitivamente que qualquer máquina.
Mas em certas tarefas — cálculo, processamento de dados, análise estatística — as máquinas tornaram-se mais velozes.
Em algumas áreas, portanto, o Coiote transformou-se em Papa-léguas.
A sequência da velocidade: tortuga, Bolt, Flash
Outra metáfora descreve três velocidades históricas:
Tartaruga — a evolução tecnológica lenta da maior parte da história humana.
Usain Bolt — a aceleração científica moderna, com revoluções industriais e digitais.
Flash — a velocidade quase instantânea da computação contemporânea.
A inteligência artificial situa-se nessa terceira fase, na qual a capacidade de processamento supera amplamente as limitações cognitivas humanas em determinadas tarefas. Ou seja, poder-se-ia falar de uma quarta fase : a inteligência artificial aplicada ao domínio cognitivo.
8. O Direito diante do novo escriba algorítmico
Para o Direito, essas transformações são particularmente significativas.
A atividade jurídica baseia-se fundamentalmente em linguagem:
interpretação de normas
análise de precedentes
construção de argumentos.
Sistemas de inteligência artificial já demonstram capacidade de auxiliar nessas atividades:
análise de jurisprudência
organização de documentos
triagem processual.
Mas essa capacidade deve ser compreendida com cautela. Estudos recentes enfatizam que a IA deve atuar como instrumento de amplificação cognitiva, e não como substituta do julgamento humano.
A decisão jurídica envolve valores, prudência e responsabilidade — elementos que permanecem profundamente humanos.
9. Um novo Renascimento?
Retornamos então à pergunta inicial.
Estamos diante de um novo Renascimento?
Talvez sim — mas não exatamente pelos motivos que o entusiasmo tecnológico costuma sugerir.
O Renascimento europeu não foi apenas uma revolução técnica; foi sobretudo uma transformação intelectual que levou os homens a reconsiderar sua própria posição no mundo.
Se a inteligência artificial vier a produzir algo semelhante, será porque nos obriga a revisitar questões fundamentais:
o que significa pensar
o que significa compreender
o que significa decidir.
Nesse sentido, a inteligência artificial talvez não inaugure uma nova forma de inteligência, mas certamente inaugura uma nova forma de reflexão sobre a inteligência.
Conclusão
Talvez o verdadeiro significado da inteligência artificial não esteja no fato de as máquinas pensarem — o que ainda parece distante —, mas no fato de que elas nos obrigam a pensar novamente sobre nós mesmos.
Como no Renascimento, o encontro com novas ferramentas cognitivas pode levar a humanidade a redescobrir algo antigo e essencial: a singularidade da própria inteligência humana.
Se esse for o caso, então sim — talvez estejamos entrando em um novo Renascimento.
Mas, como todo renascimento digno desse nome, ele dependerá menos das máquinas que criamos e mais da maneira como escolhemos compreendê-las.
Bibliografia
CORVALÁN, Juan G. Tratado de Inteligencia Artificial y Derecho. Buenos Aires: Thomson Reuters / La Ley, 2021.

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