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A IA como um novo Renascimento: que conclusões tirar?

  • Foto do escritor: gleniosabbad
    gleniosabbad
  • 4 de mar.
  • 5 min de leitura

Reflexões a partir da primeira parte - capítulo 1 prelúdio - do Tratado de Inteligência Artificial y Derecho, de Juan Corvalán


Por Glênio S Guedes ( advogado )


Há uma velha tendência humana — talvez inevitável — de anunciar novos renascimentos sempre que surge uma tecnologia particularmente impressionante. Foi assim com a imprensa, com a eletricidade, com o computador e, mais recentemente, com a internet. Agora chegou a vez da inteligência artificial.

A pergunta, entretanto, não é se a inteligência artificial é relevante — isso parece indiscutível —, mas se estamos realmente diante de algo comparável a um novo Renascimento.

Essa sugestão aparece com brilho literário no prelúdio do Tratado de Inteligencia Artificial y Derecho, de Juan Corvalán, onde o autor convida o leitor a refletir sobre a nova ecologia tecnológica que nos cerca. E, curiosamente, ele começa com uma imagem que poucos esperariam encontrar em um tratado sobre algoritmos: os ácaros domésticos.

Essa metáfora merece ser levada a sério.


1. Os ácaros invisíveis do mundo digital


Corvalán recorda que convivemos com milhões de ácaros microscópicos em colchões, livros e móveis. Não os vemos, mas eles estão ali, silenciosos e onipresentes.

A inteligência artificial — sugere ele — funciona de modo semelhante.

Vivemos rodeados de sistemas inteligentes:


  • mecanismos de recomendação

  • tradutores automáticos

  • sistemas de busca

  • algoritmos financeiros

  • filtros de redes sociais.


Esses sistemas são invisíveis, mas moldam profundamente a vida cotidiana.

Como os ácaros domésticos, os algoritmos habitam os espaços mais íntimos da vida contemporânea.

Essa imagem é particularmente feliz porque rompe com a caricatura cinematográfica da inteligência artificial como robôs metálicos ou máquinas conscientes. Na realidade, a IA moderna é sobretudo infraestrutura invisível.


2. O algoritmo: o manual de instruções do mundo digital


O prelúdio também recorda que a palavra “algoritmo” não designa nada de mágico.

Algoritmos são simplesmente sequências de regras ou instruções destinadas a resolver um problema.

A metáfora da máquina de refrigerantes é exemplar:


  • insere-se uma moeda

  • pressiona-se um botão

  • o produto é liberado.


Por trás dessa aparente simplicidade existe uma sequência lógica de instruções.

A inteligência artificial moderna não abandona essa lógica — apenas a torna mais sofisticada, combinando algoritmos com enormes quantidades de dados.


3. A lembrança medieval de Raimundo Lúlio


Uma das passagens mais sugestivas do prelúdio é a referência à célebre máquina combinatória de Raimundo Lúlio, pensador medieval do século XIII.

Lúlio imaginou um dispositivo formado por discos concêntricos contendo conceitos como:


  • poder

  • verdade

  • sabedoria.


Ao girar os discos, diferentes combinações eram produzidas, gerando novas proposições.

Jorge Luis Borges comentou essa invenção em um ensaio célebre, observando que a máquina de Lúlio era capaz de produzir combinações — mas não raciocínio verdadeiro.

A analogia com a inteligência artificial contemporânea é inevitável.

Assim como a máquina de Lúlio, os sistemas modernos de IA operam fundamentalmente por combinação e probabilidade. Eles calculam padrões possíveis dentro de vastos conjuntos de dados.

O que fazem não é pensar no sentido humano, mas produzir resultados plausíveis. São, em síntese, papagaios estocásticos!


4. IA não é inteligência humana


Aqui convém fazer uma distinção fundamental.

A expressão “inteligência artificial” pode induzir ao equívoco de que as máquinas possuem algo comparável à inteligência humana.

Na verdade, não possuem.

A inteligência humana envolve elementos que os algoritmos não possuem:


  • consciência

  • experiência subjetiva

  • intencionalidade

  • compreensão semântica profunda.


Os sistemas atuais funcionam de maneira diferente. Eles analisam grandes volumes de dados e identificam padrões estatísticos.

Em outras palavras:

IA é processamento probabilístico de informação, não pensamento consciente.

Essa diferença explica por que sistemas de IA podem:


  • traduzir textos

  • produzir respostas

  • classificar documentos


sem necessariamente compreender o conteúdo do que produzem.


5. Inteligência artificial não é consciência


Essa distinção conduz a outro ponto essencial: IA não é consciência.

Consciência envolve:


  • autoconsciência

  • experiência subjetiva

  • percepção do próprio estado mental.


Nada disso está presente nos sistemas atuais.

Modelos de linguagem produzem respostas plausíveis porque aprenderam padrões linguísticos em enormes bases de dados. Mas não têm:


  • sentimentos

  • intenções

  • entendimento fenomenológico.


Podem simular empatia, mas não experimentá-la.


6. As três grandes questões levantadas por Corvalán


O prelúdio formula três perguntas decisivas para compreender o fenômeno da inteligência artificial.


  1. Podem as máquinas pensar?

  2. Podem as máquinas imitar a inteligência humana?

  3. Podem as máquinas substituir tarefas cognitivas humanas?


A primeira pergunta é filosófica e permanece aberta desde Alan Turing.

A segunda é parcialmente respondida pela prática tecnológica contemporânea: em certas tarefas específicas, as máquinas já imitam aspectos da inteligência humana.

A terceira é a mais concreta — e também a mais inquietante. Em muitos campos, máquinas já realizam atividades antes exclusivas do cérebro humano.


7. As metáforas da aceleração tecnológica


Para explicar esse fenômeno, Corvalán utiliza duas metáforas particularmente expressivas.


O Coiote e o Papa-léguas


No famoso desenho animado, o Coiote tenta capturar o veloz Papa-léguas.

Durante muito tempo, os humanos foram o Papa-léguas: mais rápidos cognitivamente que qualquer máquina.

Mas em certas tarefas — cálculo, processamento de dados, análise estatística — as máquinas tornaram-se mais velozes.

Em algumas áreas, portanto, o Coiote transformou-se em Papa-léguas.


A sequência da velocidade: tortuga, Bolt, Flash


Outra metáfora descreve três velocidades históricas:


Tartaruga — a evolução tecnológica lenta da maior parte da história humana.

Usain Bolt — a aceleração científica moderna, com revoluções industriais e digitais.

Flash — a velocidade quase instantânea da computação contemporânea.


A inteligência artificial situa-se nessa terceira fase, na qual a capacidade de processamento supera amplamente as limitações cognitivas humanas em determinadas tarefas. Ou seja, poder-se-ia falar de uma quarta fase : a inteligência artificial aplicada ao domínio cognitivo.


8. O Direito diante do novo escriba algorítmico


Para o Direito, essas transformações são particularmente significativas.

A atividade jurídica baseia-se fundamentalmente em linguagem:


  • interpretação de normas

  • análise de precedentes

  • construção de argumentos.


Sistemas de inteligência artificial já demonstram capacidade de auxiliar nessas atividades:


  • análise de jurisprudência

  • organização de documentos

  • triagem processual.


Mas essa capacidade deve ser compreendida com cautela. Estudos recentes enfatizam que a IA deve atuar como instrumento de amplificação cognitiva, e não como substituta do julgamento humano.

A decisão jurídica envolve valores, prudência e responsabilidade — elementos que permanecem profundamente humanos.


9. Um novo Renascimento?


Retornamos então à pergunta inicial.

Estamos diante de um novo Renascimento?

Talvez sim — mas não exatamente pelos motivos que o entusiasmo tecnológico costuma sugerir.

O Renascimento europeu não foi apenas uma revolução técnica; foi sobretudo uma transformação intelectual que levou os homens a reconsiderar sua própria posição no mundo.

Se a inteligência artificial vier a produzir algo semelhante, será porque nos obriga a revisitar questões fundamentais:


  • o que significa pensar

  • o que significa compreender

  • o que significa decidir.


Nesse sentido, a inteligência artificial talvez não inaugure uma nova forma de inteligência, mas certamente inaugura uma nova forma de reflexão sobre a inteligência.


Conclusão


Talvez o verdadeiro significado da inteligência artificial não esteja no fato de as máquinas pensarem — o que ainda parece distante —, mas no fato de que elas nos obrigam a pensar novamente sobre nós mesmos.

Como no Renascimento, o encontro com novas ferramentas cognitivas pode levar a humanidade a redescobrir algo antigo e essencial: a singularidade da própria inteligência humana.

Se esse for o caso, então sim — talvez estejamos entrando em um novo Renascimento.

Mas, como todo renascimento digno desse nome, ele dependerá menos das máquinas que criamos e mais da maneira como escolhemos compreendê-las.


Bibliografia


CORVALÁN, Juan G. Tratado de Inteligencia Artificial y Derecho. Buenos Aires: Thomson Reuters / La Ley, 2021.

 
 
 

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