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Se Osler entrasse numa faculdade de medicina hoje, pediria um paciente ou um login?

  • Foto do escritor: gleniosabbad
    gleniosabbad
  • 14 de mar.
  • 5 min de leitura

“Study the patient, not the disease.”— William Osler


Em homenagem ao médico polímata Marco Antônio Barrozo Madeira


Por Glênio S Guedes ( advogado )


I — O retrato na parede e a senha do sistema


“Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.”— Machado de Assis


Há retratos que não envelhecem; apenas observam. Em muitas faculdades de medicina, pendurados em corredores discretos ou em salas de reunião de departamentos, figuram os semblantes austeros de quatro homens que ajudaram a moldar a medicina moderna: William Osler, William Henry Welch, William Stewart Halsted e Howard Atwood Kelly.

Chamaram-nos, com alguma justiça e certa reverência histórica, os quatro gigantes da medicina.

Mas imaginemos, por um instante — exercício tão útil à filosofia quanto à ironia — que esses quatro senhores resolvessem visitar uma faculdade de medicina do século XXI.

Não entrariam pela porta da história, mas pela recepção do hospital universitário. Lá receberiam um crachá provisório, assinariam um termo de confidencialidade e talvez recebessem um login para acessar o prontuário eletrônico.

E é nesse momento que talvez começasse o pequeno escândalo.

Osler, que fez da observação do paciente a alma da formação médica, talvez perguntasse:— Onde está o doente?

Alguém lhe responderia, com certo orgulho tecnológico:— Está no sistema.

Machado, se estivesse por perto, sorriria discretamente.


II — A ciência, ou como Welch organizou o caos


“É melhor uma cabeça bem feita que uma cabeça bem cheia.”— Michel de Montaigne


William Henry Welch acreditava numa coisa curiosamente simples: a medicina deveria ser ciência antes de ser profissão.

Pode parecer óbvio, mas no final do século XIX não era. Faculdades médicas proliferavam com critérios de admissão que hoje fariam corar qualquer comissão avaliadora: saber ler, escrever e pagar a matrícula era frequentemente suficiente.

Welch trouxe da Alemanha uma ideia revolucionária: o médico deveria ser formado dentro de uma cultura científica. Laboratórios, pesquisa, treinamento rigoroso, método experimental.

Foi ele quem introduziu, nos Estados Unidos, algo que hoje parece banal: o médico como pesquisador.

Se Welch percorresse alguns cursos atuais, talvez observasse fenômenos curiosos.

Nunca houve tantos artigos científicos. Nunca houve tantos gráficos. Nunca houve tantos índices de impacto.

E, paradoxalmente, talvez nunca tenha sido tão difícil distinguir ciência de retórica estatística.

Welch talvez não se assustasse com a biologia molecular, com a medicina genômica ou com a inteligência artificial. Ao contrário: ficaria encantado.

Mas talvez perguntasse, com uma serenidade quase alemã:

— Quem está ensinando método?

Porque informação, como se sabe, a internet fornece em abundância. Método, não.


III — Halsted e a arte de operar devagar


“Curar às vezes, aliviar frequentemente, consolar sempre.”— Hipócrates


William Stewart Halsted revolucionou a cirurgia com uma ideia quase subversiva: operar devagar.

Pode parecer estranho para uma época que celebrava rapidez e bravura cirúrgica, mas Halsted defendia algo mais profundo: a cirurgia deveria ser técnica refinada, quase artesanal.

Respeitar os tecidos. Controlar o sangramento. Evitar improvisos heroicos.

Foi também pioneiro no uso de luvas cirúrgicas, introduzidas inicialmente para proteger as mãos de uma enfermeira — que, por sinal, viria a tornar-se sua esposa.

Se Halsted visitasse um centro cirúrgico contemporâneo, talvez experimentasse um misto de admiração e inquietação.

Admiração pela precisão robótica. Pela imagem intraoperatória. Pela anestesia sofisticada.

Mas inquietação por outra razão.

Porque a tecnologia pode amplificar a técnica — ou substituí-la.

E Halsted talvez perguntasse, com aquele silêncio austero que só os grandes cirurgiões conhecem:

— A máquina tornou o cirurgião melhor… ou apenas mais rápido?


IV — Osler e o desaparecimento do paciente


“Todos pensam em mudar o mundo, mas ninguém pensa em mudar a si mesmo.”— Leon Tolstoi


Entre os quatro gigantes, nenhum talvez fale tão diretamente ao presente quanto William Osler.

Ele inventou algo que hoje parece óbvio: a residência médica moderna. Defendeu o ensino à beira do leito. Insistiu na centralidade da anamnese.

E cunhou frases que atravessaram séculos.

“Escute o paciente; ele está lhe dizendo o diagnóstico.”

Agora imaginemos Osler numa enfermaria contemporânea.

O médico residente entra no quarto.

Primeiro olha para o computador. Depois para o monitor. Depois para o prontuário.

Somente depois olha para o paciente.

Osler talvez não criticasse a tecnologia. Seria injusto. Ele próprio foi um inovador.

Mas talvez dissesse algo perturbadoramente simples:

— A medicina ganhou exames extraordinários. Mas perdeu tempo para ouvir.

E nesse instante o diagnóstico não seria clínico.

Seria civilizacional.


V — Kelly e a invenção permanente da medicina


“Quem pensa pouco erra muito.”— Machado de Assis


Howard Atwood Kelly era um inventor. Não apenas um médico.

Inventava instrumentos. Inventava técnicas. Inventava caminhos.

Foi pioneiro na ginecologia moderna, na radioterapia inicial e na integração entre medicina e ilustração científica.

Era também, como tantos pioneiros, um homem de convicções fortes — religiosas, morais, intelectuais.

Se Kelly visitasse a medicina atual, provavelmente ficaria fascinado.

A medicina contemporânea é, em certo sentido, um sonho que se realizou:

imagem tridimensional, cirurgia minimamente invasiva, terapias-alvo, genética molecular.

Mas Kelly talvez levantasse uma questão desconfortável.

A medicina se tornou extraordinariamente especializada.

E a especialização, como todo progresso, tem seu preço.

Quanto mais estreito o campo, maior o risco de perder o horizonte.

O especialista moderno sabe cada vez mais sobre cada vez menos.

Kelly, que inventava instrumentos enquanto reformava hospitais e escrevia tratados, talvez perguntasse:

— Quem ainda está pensando a medicina inteira?


VI — O que os quatro gigantes perguntariam hoje


“Onde quer que a arte da medicina seja amada, há também amor pela humanidade.”— Hipócrates


Se os quatro gigantes conversassem hoje entre si — Welch, Halsted, Osler e Kelly — talvez concordassem em quatro pontos simples.

Welch diria: sem ciência rigorosa, não há medicina séria.

Halsted diria: sem disciplina técnica, não há boa prática.

Osler diria: sem paciente real, não há verdadeira formação médica.

Kelly diria: sem imaginação criativa, a medicina estagna.

E talvez acrescentassem algo que não aparece em nenhum manual.

A medicina não é apenas uma técnica. Nem apenas uma ciência.

É também uma instituição moral.

Quando o ensino médico vira negócio, quando o paciente vira número, quando o médico vira operador de protocolos, então algo mais profundo se perde.

Machado talvez resumisse a situação com sua elegância habitual:

não se trata de falta de inteligência.

Trata-se de falta de juízo.


Conclusão — O que Osler pediria


Se William Osler entrasse hoje numa faculdade de medicina, talvez aceitasse o login.

Aceitaria o prontuário eletrônico. Aceitaria a inteligência artificial. Aceitaria a genética molecular.

Mas depois pediria algo muito mais simples.

Diria:

— Agora tragam-me um paciente.

E se a faculdade não soubesse onde encontrá-lo, então não seria apenas a medicina que estaria doente.

Seria a própria ideia de universidade.

 
 
 

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