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Um hormônio só não faz verão

  • Foto do escritor: gleniosabbad
    gleniosabbad
  • 20 de jul.
  • 4 min de leitura

Quando os moradores do cérebro descobrem que a felicidade é um condomínio regido pelo direito de vizinhança: cada neurotransmissor pode exercer o seu direito, mas nenhum tem licença para governar — ou perturbar — o cérebro sozinho.

"A felicidade talvez seja a única moradora que nunca atende quando se toca apenas uma campainha."

A Hipócrates e Galeno, primeiros administradores deste velho condomínio chamado corpo humano, que talvez nos lembrassem, com a serenidade dos clássicos, de que o equilíbrio sempre foi melhor síndico do que qualquer morador ilustre.


Por Glênio S Guedes (advogado)


ATA DA ASSEMBLEIA GERAL EXTRAORDINÁRIA DO CONDOMÍNIO CÉREBRO


Aos vinte dias do mês de julho do corrente ano, às dezenove horas, em segunda convocação — porque a primeira fracassara por insuficiência de sinapses presentes — reuniram-se os moradores do Condomínio Cérebro para deliberar sobre matéria de inequívoco interesse comum.

Constava da ordem do dia um único item:


"Definir qual dos moradores deve ser oficialmente reconhecido como proprietário da felicidade."


Assumiu a presidência dos trabalhos o velho Hipocampo, por ser o único que ainda se lembrava de reuniões anteriores.

Secretariou os trabalhos o Córtex Pré-Frontal, embora alguns presentes considerassem precipitado confiar a redação da ata justamente ao setor encarregado da prudência.

Verificada a regularidade da convocação, passou-se imediatamente aos debates.

A Dopamina pediu a palavra.

Dispensou apresentações.

Entrou como costumam entrar as celebridades das redes sociais: convencida de que todos já a conheciam.

Declarou que não compreendia a razão daquela assembleia.

Segundo afirmou, a felicidade sempre lhe pertencera.

— Sem mim — disse com visível satisfação — ninguém se levanta da cama, aprende um idioma, escreve um livro, funda uma empresa, conquista uma medalha nem sequer decide começar uma dieta na segunda-feira.

Alguns moradores bateram palmas.

Outros apenas registraram a manifestação.

A Serotonina pediu a palavra.

Fê-lo com serenidade incompatível com debates condominiais.

— Minha ilustre vizinha talvez esteja confundindo entusiasmo com administração predial. Gostaria apenas de lembrar que um edifício sem sono, sem equilíbrio emocional, sem adequada regulação do humor e dos impulsos costuma produzir mais boletins de ocorrência do que felicidade.

A observação foi recebida com respeitoso silêncio.

Silêncio.

As Endorfinas falaram pouco.

Tinham aprendido, depois de muitas dores, que frases curtas costumam sobreviver mais do que discursos longos.

— Os senhores só se lembram de mim quando a vida dói.

Constou em ata.

A Ocitocina, conhecida entre os moradores por tentar conciliar até vizinhos que discutiam por causa de vaga de garagem sináptica, pediu cautela.

— Talvez este condomínio exista menos por causa de cada apartamento individualmente considerado do que pela convivência entre todos eles.

Alguns condôminos classificaram a observação como excessivamente diplomática.

Outros chamaram-na de amorosa.

Ela preferiu não responder.

Em seguida, instalou-se o previsível tumulto.

O Glutamato reclamou que havia pouca atividade.

O GABA sustentou exatamente o contrário.

A Noradrenalina afirmou que todos estavam lentos.

O Cortisol declarou estado permanente de urgência.

A Testosterona e o Estrogênio discordaram cordialmente acerca da influência que exerciam sobre os moradores.

Da garagem, um representante da Microbiota Intestinal enviou manifestação escrita lembrando que boa parte dos problemas do edifício começava no térreo, embora a cobertura insistisse em ignorá-lo.

O Síndico percebeu que a assembleia começava a adquirir o conhecido perfil das assembleias humanas: todos falavam; poucos ouviam; nenhum mudava de opinião.

Foi então que se concedeu a palavra ao único convidado externo.

Filósofo.

Especialista em análise de conceitos.

Convidado apenas para observar os trabalhos, pois se imaginava que filósofos, como notários, raramente perturbassem reuniões.

Depois de ouvir pacientemente as exposições, formulou uma única pergunta.

— Antes de deliberarmos sobre quem é proprietário da felicidade, alguém nesta sala poderia definir exatamente o que seja felicidade?

Silêncio.

Desta vez, um silêncio mais profundo.

Até o Cortisol reduziu discretamente sua atividade.

A Dopamina olhou para a Serotonina.

A Serotonina consultou a Ocitocina.

As Endorfinas limitaram-se a sorrir.

Constou em ata que nenhum dos presentes apresentou definição suficientemente satisfatória.

Foi nesse instante que o Presidente perguntou ao Secretário:

— A felicidade foi regularmente convocada?

O Córtex Pré-Frontal consultou a lista de presença.

Folheou as páginas.

Conferiu novamente.

Respondeu:

— Sim, Excelência. Foi convocada.

— Compareceu?

— Não.

Seguiu-se nova perplexidade.

Todos falavam em nome dela.

Todos afirmavam conhecê-la.

Alguns juravam encontrá-la diariamente.

Outros diziam tê-la perdido havia anos.

Entretanto, ninguém conseguia descrevê-la com precisão.

Naquele momento, o filósofo fez constar uma observação marginal na ata:

"A felicidade tornou-se a Capitu da neuroquímica: sua influência é universal; sua definição, esquiva; sua presença, permanentemente discutida; sua ausência, jamais demonstrada."

Nenhum dos presentes ousou impugnar a observação.

Prosseguindo os trabalhos, o assessor jurídico do condomínio pediu licença para recordar uma antiga regra dos direitos de vizinhança.

Mesmo o proprietário mais zeloso não possui autorização para exercer seu direito de maneira a inviabilizar a vida dos demais moradores.

O uso legítimo transforma-se em abuso quando perturba o sossego, a segurança ou a saúde da coletividade.

Talvez — ponderou — o cérebro funcione de maneira surpreendentemente semelhante.

A Dopamina possui seu apartamento.

A Serotonina também.

As Endorfinas administram outro.

A Ocitocina conhece todos os corredores.

O Cortisol mantém um escritório de plantão.

O GABA reclama do barulho.

O Glutamato considera o silêncio excessivo.

Todos possuem direitos.

Nenhum possui escritura da cobertura.


DELIBERAÇÃO FINAL


Por unanimidade, rejeitou-se a pretensão de qualquer morador de ser reconhecido como proprietário exclusivo da felicidade, por manifesta violação aos princípios da boa convivência neuroquímica e dos direitos de vizinhança.

Ficou consignado que a felicidade, caso algum dia resolva fixar residência no Condomínio Cérebro, será considerada bem de uso comum, insuscetível de usucapião molecular e incompatível com qualquer pretensão de domínio exclusivo.

Nada mais havendo a tratar, encerrou-se a assembleia.

A ata foi lida e aprovada.

A felicidade, entretanto, novamente não a assinou.

Talvez nunca tenha morado naquele edifício.

Ou talvez apenas visite, sem aviso prévio, os condomínios em que os vizinhos finalmente compreendem que um bom convívio vale mais do que qualquer disputa pela sindicância.


 
 
 

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