Parabéns, humanidade: o robô já corre mais que Bolt
- gleniosabbad
- há 2 dias
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Agora só falta aprendermos a chegar a tempo onde seres humanos estão morrendo
“Age de modo que os efeitos da tua ação sejam compatíveis com a permanência de uma autêntica vida humana sobre a Terra.” — Hans Jonas, O Princípio Responsabilidade
Por Glênio S Guedes (advogado)
Duas notícias, publicadas quase simultaneamente, bastam para lançar uma suspeita pouco lisonjeira sobre a nossa espécie.
Na primeira, um robô humanoide chinês, significativamente batizado de Lightning, percorre cem metros em 9,32 segundos e supera os 9,58 de Usain Bolt. A China vê nos humanoides uma indústria estratégica e prepara-lhes emprego na indústria, na logística e no consumo. Magnífico. O homem finalmente construiu alguma coisa que corre mais depressa que o homem.
Na segunda notícia, ninguém corre tão bem. Na República Democrática do Congo, guerra e ebola disputam seres humanos. Desde maio, segundo o editorial da Folha, contabilizavam-se 4.945 casos e 2.325 mortes; o conflito já produzira 7 milhões de deslocados dentro do país e outro milhão no exterior. Campanhas sanitárias não alcançam comunidades dominadas por milícias; instalações e equipes médicas são atacadas. Convém, portanto, celebrar Lightning. Talvez possamos mandá-lo buscar ajuda.
A ironia seria apenas de mau gosto se as duas histórias não se tocassem num ponto muito menos divertido: o subsolo. O Congo possui cobalto, cobre e coltan. A exploração mineral convive, no leste do país, com violência, milícias e interesses estrangeiros. E o editorial encerra com uma dessas frases que dispensam comentários, embora justamente por isso os mereçam: os Estados Unidos promovem negociações de paz interessados no acesso às jazidas; a China mobiliza equipes médicas para preservar investimentos já realizados. “É o que move as duas potências mundiais.” Eis o Bom Samaritano atualizado para o século XXI.
O homem está caído à beira da estrada. Passa uma potência, consulta o mapa geológico e pergunta: há cobalto? Passa outra, abre a planilha e indaga: temos investimentos aqui? Confirmadas as respostas, ambas descobrem subitamente que aquele infeliz é nosso próximo.
Não se trata, naturalmente, de atribuir pureza aos Estados. Morgenthau teria razões para sorrir diante de tamanha ingenuidade. Potências possuem interesses; sempre os tiveram. A política internacional nunca foi associação beneficente, e seria infantil esperar que Washington ou Pequim se convertessem, por súbita iluminação, em Madre Teresa com porta-aviões.
A pergunta é outra: que civilização construímos quando o interesse consegue atravessar fronteiras com mais facilidade que a compaixão?
Hans Jonas pode ajudar-nos. O poder técnico da humanidade cresceu numa velocidade que nossa responsabilidade moral não acompanhou. Conseguimos ensinar máquinas a correr, reconhecer rostos, conversar, fabricar peças e talvez amanhã cuidar de enfermos. Mas continuamos embaraçados diante da velha questão: que obrigação tenho perante um homem que nunca vi?
A técnica responde depressa. A ética pede prorrogação.
Amartya Sen acrescentaria uma distinção decisiva. Desenvolvimento não é apenas aquilo que uma sociedade consegue fabricar; é também aquilo que seus seres humanos conseguem efetivamente ser e fazer. Uma máquina percorrer cem metros em 9,32 segundos constitui extraordinária capacidade tecnológica. Um homem poder chegar vivo ao hospital constitui capacidade humana elementar.
O curioso é termos transformado a primeira em notícia extraordinária e a segunda, em certos lugares, em aspiração extraordinária.
Existe ainda uma pequena crueldade linguística nessa história. Lightning tem nome. Os mortos têm número.
O robô é Lightning. O atleta é Usain Bolt. O presidente congolês é Félix Tshisekedi. As potências são Estados Unidos e China. Os minerais são cobalto, cobre e coltan.
E os mortos?
2.325.
Quando a tragédia cresce, a gramática humana parece encolher. Uma pessoa possui rosto; mil possuem estatística. Talvez seja inevitável para contar catástrofes. Não deveria ser inevitável para pensá-las.
Seria tentador concluir que devemos abandonar robôs e gastar tudo com hospitais. Seria também uma tolice. Uma civilização digna desse nome não precisa escolher entre ciência e humanidade. Pode construir robôs e salvar congoleses. Pode ir a Marte e vacinar crianças. Pode desenvolver inteligência artificial e desenvolver inteligência moral.
O escândalo não está no que conseguimos fazer.
Está no que, podendo fazer, escolhemos não fazer.
E aqui voltamos ao homem caído da parábola. O sacerdote passou. O levita passou. O samaritano parou. A revolução moral do relato está justamente aí: “próximo” não designa quem pertence à minha tribo, religião, país ou interesse. Próximo é aquele cujo sofrimento cria em mim uma obrigação.
Dois milênios depois, globalizamos quase tudo.
Globalizamos capitais, mercadorias, minerais, informações, epidemias, guerras, algoritmos e cadeias produtivas. Um minério africano pode integrar uma cadeia industrial asiática, financiar uma empresa americana, abastecer um consumidor europeu e movimentar bolsas em segundos.
Só a responsabilidade continua precisando de passaporte.
Talvez, portanto, a pergunta não seja o que aconteceu com o ser humano. Talvez nada tenha acontecido. Talvez sejamos exatamente esta criatura contraditória: capaz de construir uma máquina extraordinária e de passar ao largo de um homem caído; capaz de descobrir uma jazida a milhares de quilômetros e de não descobrir, a dois passos dela, um semelhante.
Lightning fez os cem metros em 9,32 segundos.
Parabéns à humanidade.
Agora resta uma prova um pouco mais difícil, para a qual ainda não há recorde mundial: quanto tempo levaremos para percorrer a distância entre o interesse e a solidariedade?
Não será preciso correr mais depressa que Bolt.
Bastará, desta vez, não passar adiante.

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