Os japoneses descobriram o vaso. Nós aperfeiçoamos o polvo.
Uma breve investigação sobre corações, polvos e a antiga vocação humana para confundir abrigo com armadilha.
"O polvo entra no vaso porque acredita ter encontrado abrigo. O restante da história interessa tanto aos pescadores quanto aos eleitores."
Aos meus amigos médicos, que diariamente recordam uma verdade tão antiga quanto necessária: por trás de cada diagnóstico existe uma pessoa; por trás de cada exame, uma história; e por trás de cada coração, muito mais do que um músculo. Se este ensaio tomou emprestada uma metáfora da Medicina para refletir sobre a condição humana, foi porque a boa Medicina, antes de curar corpos, sempre nos ensinou a compreender pessoas.
Por Glênio S Guedes (advogado)
Há doenças cujo nome parece ter sido escolhido por um romancista. A cardiomiopatia de Takotsubo é uma delas. Durante muito tempo, ficou conhecida como síndrome do coração partido, expressão suficientemente poética para agradar aos cronistas e suficientemente imprecisa para inquietar os cardiologistas.
Hoje se sabe que o fenômeno é bem mais complexo. O paciente costuma chegar ao hospital com dor no peito, alterações eletrocardiográficas e marcadores cardíacos elevados, quadro quase indistinguível de um infarto agudo do miocárdio. No entanto, as artérias coronárias geralmente não exibem a obstrução típica do infarto clássico. O problema parece decorrer de uma intensa resposta neuro-hormonal, na qual as catecolaminas desempenham papel central, acompanhada de alterações da microcirculação coronariana e de uma disfunção transitória do músculo cardíaco. O coração sofre, muda temporariamente de forma e, felizmente, na maioria dos casos recupera-se.
Também se descobriu que a antiga alcunha romântica já não descreve adequadamente a doença. O luto continua sendo um desencadeante frequente, mas está longe de ser o único. Alegria extrema, grandes cirurgias, acidentes vasculares cerebrais, crises asmáticas graves, infecções, doenças endócrinas e outros eventos capazes de submeter o organismo a intenso estresse fisiológico podem produzir exatamente o mesmo quadro.
Às vezes não é o coração que se parte.
É o organismo inteiro que se surpreende consigo mesmo.
Foi durante essa leitura que surgiu uma curiosidade inesperada. Imaginava-se que Takotsubo fosse o sobrenome de algum professor japonês. Não era. Tratava-se de um velho utensílio de pesca.
Um artefato de barro, de boca larga e interior acolhedor, era depositado no fundo do mar para capturar polvos. O mecanismo possuía uma simplicidade quase constrangedora. A cerâmica não perseguia, não seduzia, não armava emboscadas. Apenas permanecia onde sempre estivera. O polvo encontrava abrigo, instalava-se confortavelmente e, quando percebia que a saída era mais estreita do que parecera à primeira vista, o pescador já recolhera o vaso.
Os cardiologistas apropriaram-se da imagem porque o ventrículo esquerdo, durante a síndrome, assume precisamente a forma daquele antigo recipiente japonês.
Até esse ponto, tudo parecia pertencer exclusivamente à Medicina.
Demorou algum tempo para surgir uma suspeita incômoda: talvez os cardiologistas estivessem descrevendo, sem o saber, um fenômeno que jamais pertenceu apenas ao coração.
Há um detalhe curioso no velho vaso japonês. Sua eficácia não depende da inteligência do pescador, mas da interpretação do polvo. O recipiente limita-se a existir. Quem lhe atribui o significado de abrigo é o animal.
Talvez as armadilhas mais eficientes sejam precisamente aquelas que não correm atrás de ninguém.
A História parece colecionar exemplos semelhantes.
Mudam os séculos, as ideologias, os uniformes, os slogans e as bandeiras. A peça de barro, entretanto, conserva admirável estabilidade. Continua oferecendo uma entrada generosa às expectativas e uma saída surpreendentemente estreita às dúvidas.
Não é a esperança que produz vasos. Ela constitui uma das virtudes indispensáveis das sociedades livres. O problema começa quando abandona instituições para instalar residência em indivíduos. Nesse instante, leis parecem lentas, tribunais tornam-se enfadonhos, procedimentos passam a ser obstáculos e uma biografia adquire a improvável missão de resolver, em poucos anos, dificuldades que sobreviveram a impérios, revoluções e constituições.
Também aqui ocorre uma remodelação.
Na Cardiologia, uma intensa resposta ao estresse pode alterar temporariamente a forma do coração.
Na vida pública, respostas igualmente intensas ao medo, à indignação, à euforia ou ao desencanto parecem capazes de remodelar, ainda que provisoriamente, a arquitetura do discernimento coletivo.
Talvez por isso as instituições despertem tão pouco entusiasmo. Ninguém organiza celebrações em homenagem aos freios e contrapesos. Dificilmente uma multidão se emociona diante da independência de um tribunal ou da monotonia de um procedimento administrativo. Constituições raramente aceleram os batimentos cardíacos.
E talvez essa seja precisamente a sua função.
Não produzir emoções.
Mas sobreviver a elas.
Seria confortável concluir que tudo decorre da habilidade dos pescadores. Infelizmente, a hipótese absolveria cedo demais os polvos. Há muito tempo existem homens especializados em oferecer recipientes atraentes. O que continua intrigando é a persistência com que se acredita que o próximo vaso será diferente: mais amplo, mais moderno, mais justo, mais patriótico, mais revolucionário, mais moral, mais tecnológico. Mudam os adjetivos. A geometria permanece.
Também seria pouco elegante fingir imunidade. A vida oferece vasos de todas as espécies, e alguns são extraordinariamente convincentes. Houve ocasiões em que entusiasmo pareceu discernimento, eloquência confundiu-se com competência e convicção assumiu a aparência de sabedoria. A idade não elimina tais equívocos; apenas ensina a reconhecê-los um pouco antes que a tampa se feche.
Talvez seja essa a aproximação mais discreta entre a Cardiologia e a Ciência Política. Ambas recordam que estruturas aparentemente sólidas podem modificar-se sob intenso estresse e, felizmente, ambas também ensinam que a recuperação depende menos da intensidade da emoção do que da capacidade de restaurar o funcionamento normal.
O velho vaso japonês continua sendo apenas um utensílio de pesca.
Ainda assim, poucas peças de cerâmica explicam com tanta elegância uma inclinação humana recorrente: a de entrar espontaneamente em lugares cuja hospitalidade se revela proporcionalmente inversa à facilidade de abandoná-los.
O coração merece todas as paixões do mundo.
O juízo talvez devesse demorar um pouco mais para acompanhá-las...

Espetacular, sua visão e sensibilidade são extraordinárias. Abs