top of page

O Cientista Útil ao Erro

  • Foto do escritor: gleniosabbad
    gleniosabbad
  • 18 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura

Heurística do prestígio e a industrialização da ignorância


Por Glênio S Guedes ( advogado )


1. Introdução: o novo inimigo não é o ignorante


Durante muito tempo, acreditou-se que o maior risco à democracia fosse a ignorância. O livro Mercadores da Dúvida, de Naomi Oreskes e Erik Conway, obriga-nos a uma correção desconfortável: o perigo maior não é quem não sabe, mas quem sabe mal — e fala com autoridade.

A figura central desse novo cenário não é o leigo confuso, mas o cientista deslocado, o especialista fora de área, o portador de prestígio acadêmico que empresta sua credencial a causas que já perderam o lastro empírico. Surge, assim, o mau cientista: não o fraudador grosseiro, mas o operador sofisticado da dúvida.


2. Heurística do prestígio: quando o cérebro terceiriza o juízo


A neurociência cognitiva oferece uma chave decisiva para entender o fenômeno. O cérebro humano opera, em grande parte, por heurísticas — atalhos cognitivos que economizam esforço decisório. Uma das mais poderosas é a heurística do prestígio.

Em termos simples:

se alguém é reconhecido como autoridade, o cérebro reduz drasticamente o escrutínio crítico de suas afirmações.

Essa heurística é adaptativa em contextos normais: não podemos reavaliar tudo desde o zero. O problema surge quando ela é explorada estrategicamente. O público não distingue, por mecanismos intuitivos:


  • um físico nuclear de um climatologista;

  • um cientista laureado em um campo de um leigo no outro.

  • enfim, um jurista de um leguleio.


A autoridade “vaza” de uma área para outra.


3. Do erro científico à sabotagem epistêmica


É crucial distinguir:


  • erro científico, que é constitutivo do progresso do conhecimento;

  • manipulação epistêmica, que visa impedir que o conhecimento se estabilize.


Os “mercadores da dúvida” descritos por Oreskes e Conway não pretendem vencer um debate científico. Seu objetivo é mantê-lo eternamente aberto, mesmo quando o consenso já está consolidado.

Epistemologicamente, isso representa uma mutação grave:


  • a ciência deixa de ser campo de produção de verdade provisória,

  • e passa a ser usada como recurso retórico de paralisia política.


4. O mau cientista como ator político


O mau cientista não atua primariamente no laboratório, mas no espaço público. Ele compreendeu algo fundamental: a democracia depende de confiança epistêmica.

Políticas públicas exigem:


  • previsões,

  • avaliação de riscos,

  • aceitação de consensos técnicos mínimos.


Ao corroer essa confiança, o mau cientista não “discorda”: ele desorganiza o ambiente cognitivo da decisão coletiva. Não oferece alternativa melhor; oferece confusão suficiente para impedir qualquer ação.


5. A falsa simetria e o colapso do critério


A instrumentalização do chamado “equilíbrio jornalístico” é talvez a face mais visível dessa estratégia. Quando duas posições recebem o mesmo espaço, o cérebro do leitor infere:

se há dois lados, deve haver dúvida legítima.

O que se perde é o critério epistemológico:


  • quantidade de evidência,

  • qualidade metodológica,

  • grau de consenso disciplinar.


A democracia, então, passa a deliberar não entre argumentos, mas entre performances de autoridade.


6. Por que o mau cientista é mais perigoso que o negacionista comum


O negacionista comum convence poucos e radicaliza muitos. O mau cientista, ao contrário:


  • parece moderado,

  • fala em “prudência”,

  • pede “mais estudos” quando já há estudos suficientes.


Ele não nega frontalmente: adiar é sua forma de negar.

Do ponto de vista neurocognitivo, isso é devastador:


  • reduz dissonância cognitiva,

  • preserva identidades políticas,

  • permite a inação sem culpa.


7. Implicações para a democracia e o direito


Aqui emerge uma questão normativa incontornável: a liberdade de expressão científica inclui a liberdade de desorganizar deliberadamente o espaço epistêmico público?

Não se trata de censura, mas de responsabilidade epistêmica, sobretudo quando:


  • há financiamento oculto,

  • conflito de interesses,

  • uso reiterado de autoridade fora de escopo.


Uma democracia que não protege seus critérios de racionalidade decisória torna-se refém de quem melhor manipula a dúvida.


8. Conclusão: entre a ciência e a democracia, há um dever


Mercadores da Dúvida revela algo inquietante: a ciência pode ser usada contra a própria ideia de verdade, se suas credenciais forem separadas de seus métodos.

O mau cientista não destrói a democracia gritando mentiras, mas sussurrando dúvidas com voz autorizada. Combater esse fenômeno exige:


  • alfabetização epistêmica,

  • jornalismo menos simétrico e mais criterioso,

  • e, sobretudo, a recusa de confundir prestígio com verdade.


Porque, ao fim, a pergunta decisiva não é científica, mas política:

quem deve ter o poder de confundir quando o custo da confusão é coletivo?

 
 
 

Posts recentes

Ver tudo

Comentários


bottom of page