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Entre cérebro e vida

  • Foto do escritor: gleniosabbad
    gleniosabbad
  • 19 de dez. de 2025
  • 5 min de leitura

Por que a neurociência não pode silenciar a mente viva


Por Glênio S Guedes ( advogado )


O cérebro não pensa sozinho; é a vida que pensa nele.

1. Introdução – O risco contemporâneo do neurocentrismo


A neurociência consolidou-se, nas últimas décadas, como um dos campos mais influentes do saber contemporâneo. Técnicas de neuroimagem, modelos experimentais sofisticados, avanços em neurofarmacologia e correlações cada vez mais refinadas entre atividade neural e comportamento ampliaram significativamente o conhecimento científico sobre o cérebro humano. Esse avanço, no entanto, trouxe consigo um risco teórico e prático: o de tratar a mente viva como se fosse redutível ao modelo neurocientífico que a descreve.

Este artigo sustenta que a neurociência, enquanto ciência do cérebro, não pode violar a semiose da vida. Tal como ocorre na medicina quando o tratamento silencia o corpo, ocorre na neurociência quando o modelo cerebral substitui a experiência viva que pretende explicar. A tese aqui desenvolvida, embora centrada na neurociência, vale de modo geral para a medicina e para suas diversas disciplinas: sempre que um saber clínico toma seu modelo como fundamento último, corre o risco de silenciar a resposta vital que deveria escutar.

A base teórica do argumento encontra-se na semiótica global desenvolvida por Augusto Ponzio, Susan Petrilli e Patrizia Calefato, segundo a qual a vida é, desde sempre, processo interpretativo e responsivo, anterior à linguagem, à ciência e às instituições.


2. A semiose da vida e o estatuto do cérebro vivo


A semiótica global parte de uma tese simples e radical: viver é interpretar. A vida não reage mecanicamente ao mundo, mas o recorta como significativo, atribuindo valor às diferenças e orientando respostas. Esse processo constitui o que se denomina sistema modelizante primário.

No caso humano, tal processo envolve o cérebro, mas não se reduz a ele enquanto objeto anatômico. O cérebro vivo não é apenas um conjunto de neurônios e sinapses; ele é um nó vital de interpretação, inseparável do corpo, do ambiente e da história concreta do sujeito. Antes de qualquer conceito, imagem cerebral ou descrição científica, a atividade neural já distingue relevâncias, antecipa riscos, orienta ações e integra experiências.

É nesse nível que se situa a semiose neural da vida: não como representação simbólica, mas como orientação vital incorporada.


3. Atividade neural viva e modelização primária


Um equívoco recorrente do neurocientificismo consiste em identificar o sistema modelizante primário com o cérebro enquanto objeto empírico isolado. Essa identificação é conceitualmente insustentável. O nível primário não é o órgão enquanto estrutura físico-química, mas a atividade neural enquanto processo vivo de interpretação e resposta.

Dor, medo, atenção, sofrimento psíquico, memória e tomada de decisão não surgem como epifenômenos tardios de circuitos neutros. Eles são modos pelos quais a vida se orienta no mundo, respondendo a contextos históricos, relacionais e ambientais concretos. A atividade neural viva já é significativa antes de qualquer explicação científica. O cérebro não “ganha sentido” quando é estudado; ele já opera sentido enquanto parte de um organismo vivo situado.


4. Neurociência como sistema modelizante secundário


A neurociência, enquanto disciplina científica, constitui uma modelização secundária dessa atividade vital. Ela descreve, mede, correlaciona, abstrai e intervém por meio de linguagem técnica, experimentos controlados e modelos teóricos. Tal como ocorre com a imunologia em relação ao sistema imunológico, a neurociência não cria o fenômeno que estuda. Ela o reconfigura conceitualmente.

Seus modelos são indispensáveis, mas não soberanos. Quando a neurociência é tomada como instância última de verdade sobre a mente, ocorre uma inversão epistemológica: o modelo passa a substituir o fenômeno vivo. Explicar não é compreender; correlacionar não é responder; descrever não é escutar.


5. Cérebro, contexto e sofrimento psíquico


A redução do sofrimento psíquico a disfunções cerebrais isoladas constitui um dos exemplos mais claros de violação da semiose da vida no campo neurocientífico. Estados como depressão, ansiedade ou instabilidade emocional são frequentemente tratados como falhas intrínsecas do cérebro, quando, na realidade, a atividade neural responde a contextos de vida marcados por experiências concretas.

Nesse ponto, é particularmente relevante a contribuição clínica de Juliana Belo Diniz, psiquiatra e pesquisadora, que critica a explicação simplista dos transtornos mentais como meros “defeitos do cérebro”. Para Diniz, o sofrimento psíquico não pode ser compreendido adequadamente sem levar em conta a história, o contexto social e as experiências de vida do paciente. O cérebro, nesses casos, não está funcionando de modo errado, mas funcionando de acordo com as exigências impostas por determinados contextos de existência.

Essa observação clínica converge diretamente com a semiótica da vida: a atividade neural traduz, em seu próprio nível, a semiose vital produzida por experiências históricas e relacionais. Reduzir esse processo a um déficit neuroquímico ou a uma anomalia localizável significa silenciar o sentido vivido da experiência.


6. Quando a neurociência silencia a mente viva


A violação da semiose da vida no campo neurocientífico manifesta-se de diversas formas: quando a dor é reduzida à ativação de áreas cerebrais; quando o sofrimento psíquico é tratado apenas como desequilíbrio neuroquímico; quando decisões morais são explicadas exclusivamente por padrões neurais; quando imagens cerebrais passam a falar em lugar do sujeito.

Nessas situações, a experiência viva do indivíduo é convertida em ruído ou epifenômeno. O cérebro explicado cala a mente vivida. O resultado não é apenas empobrecimento teórico, mas violência epistemológica, com consequências clínicas, éticas e jurídicas relevantes.


7. Da neurociência à medicina em geral: um argumento transversal


Embora este artigo tenha tomado a neurociência como campo privilegiado de análise, o argumento desenvolvido não se limita a ela. O que aqui se afirma vale, com as devidas adaptações, para a medicina e suas disciplinas de modo geral. Sempre que um saber médico — seja ele neurológico, psiquiátrico, imunológico ou farmacológico — toma seu modelo científico como fundamento absoluto da decisão clínica, corre o risco de violar a semiose da vida.

A ciência médica, em todas as suas áreas, é um sistema modelizante secundário. Seu papel não é substituir a resposta vital do organismo, mas responder a ela de modo responsável. Quando isso é esquecido, o tratamento deixa de cuidar e passa a impor.


8. Responsabilidade científica e escuta da mente viva


Reconhecer a precedência da semiose da vida não significa rejeitar a neurociência nem a medicina científica, mas responsabilizá-las. O saber científico torna-se ético não quando abdica de seus métodos, mas quando reconhece que responde a um fenômeno que o antecede e o excede.

A neurociência — assim como a medicina em geral — permanece fiel à sua vocação quando compreende que seus modelos são respostas provisórias à vida, e não substitutos dela. Sempre que o modelo pretende falar em lugar da vida, instala-se o silenciamento.


9. Considerações finais – Explicar não é escutar


Entre cérebro e vida, a neurociência ocupa um lugar decisivo, mas não absoluto. O cérebro não é aquilo que a neurociência descreve; a neurociência é uma resposta conceitual a uma semiose neural viva que a precede.

Assim como a medicina não pode calar o corpo, a neurociência não pode calar a mente viva. Explicar não é escutar. E sem escuta, o saber científico perde seu vínculo com a vida que pretende compreender.


Bibliografia

PONZIO, Augusto; PETRILLI, Susan; CALEFATO, Patrizia. Fundamentos de Filosofia da Linguagem. Petrópolis: Vozes, 2007.

DINIZ, Juliana Belo. O que os Psiquiatras Não Te Contam. São Paulo: Fósforo, 2025.


 
 
 

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