E se o índice Apgar fosse aplicado para avaliar o nascimento de um populista de direita ou de esquerda?
- gleniosabbad
- 31 de jul.
- 4 min de leitura
Homenagem
Aos meus amigos médicos a quem carinhosamente chamo de ¨hipocráticos¨, cujas conversas frequentemente me recordam que a Medicina não cuida apenas de corpos, mas também ensina a observar a condição humana com rigor, prudência e humildade. Se este artigo ousa aproximar a Neonatologia da Ciência Política, deve-o, em grande medida, à generosidade intelectual desses médicos, que, sem o saber, fizeram de mim um atento aluno de suas lições. Minha sincera gratidão por demonstrarem, todos os dias, que o verdadeiro conhecimento cresce quando atravessa as fronteiras entre as disciplinas.
Há crianças que nascem chorando. Outras nascem dormindo. E há ideias políticas que já chegam ao mundo discursando.
Por Glênio S Guedes (advogado)
Se algum neonatologista tivesse o infortúnio de ser convocado para assistir ao parto de um populista — pouco importando se de direita ou de esquerda — talvez pedisse, antes das luvas, uma Constituição; antes do estetoscópio, um tratado de Ciência Política; e, por cautela, deixasse um exemplar de História ao alcance da mão. Não por receio do recém-nascido, mas porque certas criaturas políticas parecem vir ao mundo convencidas de que a realidade deve adaptar-se ao seu primeiro vagido.
A Medicina criou o índice Apgar para avaliar como um recém-nascido enfrenta os primeiros minutos de existência. A política, porém, jamais elaborou instrumento semelhante para examinar a adaptação de certas lideranças ao ecossistema mais exigente que existe: a democracia constitucional.
Suponhamos, então, que a Pediatria empreste sua escala ao cientista político.
O primeiro item seria a frequência cardíaca institucional.
Um bebê saudável apresenta coração vigoroso. Um populista, ao contrário, costuma revelar palpitações toda vez que ouve expressões como "freios e contrapesos", "separação de Poderes" ou "controle jurisdicional". Se a pressão arterial sobe ao simples avistar de um tribunal independente, talvez mereça observação em incubadora republicana.
Passemos à respiração.
Na Neonatologia, importa saber se o recém-nascido respira espontaneamente. Na política, perguntaríamos se a liderança consegue respirar sem auxílio permanente de um inimigo. Há espécimes cuja oxigenação depende da fabricação contínua de conspiradores, traidores, elites, oligarquias, imprensa vendida, sistema, imperialismo, globalismo ou qualquer outro nome que sirva ao mesmo propósito fisiológico: manter vivo o discurso pela escassez de adversários reais.
Quando falta inimigo, instala-se a apneia retórica.
Vem, então, o tônus muscular.
No recém-nascido, mede-se a vitalidade dos movimentos. No populismo, observar-se-ia a elasticidade das convicções. Alguns exibem notável flexibilidade: estatistas ao amanhecer, liberais ao entardecer; garantistas na oposição, punitivistas no governo; defensores da austeridade diante dos outros, generosos administradores do Tesouro quando o cofre lhes pertence.
Não se trata propriamente de falta de coluna. É uma coluna dotada de invejável capacidade de adaptação.
Chegamos à irritabilidade reflexa.
Aqui o teste seria simples.
Pronuncie-se, diante do recém-chegado, palavras como "dados", "estatísticas", "evidências", "complexidade", "incerteza" ou "estudo longitudinal".
Se a reação for uma crise de urticária ideológica, acompanhada de ataques ao mensageiro, ao instituto de pesquisa e, se possível, ao inventor da estatística, talvez o paciente necessite de acompanhamento prolongado.
Resta a coloração.
Na Medicina, procura-se saber se a circulação está adequada. Na política, examinaríamos outra perfusão: a do pluralismo.
Há organismos que, uma vez no poder, apresentam curiosa intolerância cromática. Tudo deve adquirir a mesma tonalidade do grupo dirigente. Divergências passam a ser vistas como infecções; críticas, como doenças autoimunes; opositores, como agentes patológicos cuja simples existência ameaça o organismo nacional.
O diagnóstico costuma ser feito com grande convicção e escassa humildade clínica.
Ao final da avaliação, imaginemos o boletim.
Frequência institucional: 1.
Respiração democrática: 1.
Tônus programático: 1.
Reflexos diante dos fatos: 0.
Coloração pluralista: 1.
Total: 4.
O neonatologista chamaria a equipe de reanimação.
O constitucionalista sugeriria fortalecer as instituições.
O historiador lembraria que outros pacientes semelhantes já passaram pela enfermaria da civilização, alguns com nomes hoje gravados em monumentos, outros apenas em notas de rodapé — e nenhum deles conseguiu abolir a velha insistência da realidade em contrariar discursos excessivamente simples.
É claro que toda metáfora tem seus limites. Um bebê com baixo Apgar merece cuidado, jamais censura. Um líder político, por sua vez, não nasce biologicamente populista; torna-se populista por escolhas, incentivos e circunstâncias. Misturar os dois planos seria injusto com a Neonatologia e com os recém-nascidos.
Ainda assim, a comparação oferece uma lição curiosa.
O índice Apgar não pretende prever toda a vida da criança. Ele apenas pergunta como ela enfrenta os primeiros instantes fora do útero.
Talvez devêssemos fazer algo semelhante com os projetos políticos.
Antes de discutir se prometem prosperidade, igualdade, tradição, revolução ou grandeza nacional, convinha submetê-los a uma breve avaliação neonatal republicana.
Respiram instituições?
Possuem batimentos constitucionais regulares?
Movimentam-se dentro das regras do jogo?
Reagem bem ao contraditório?
Apresentam circulação saudável de ideias?
Se a resposta for negativa, pouco importa a cor da bandeira hasteada sobre o berço. A incubadora será a mesma.
Porque a democracia, como os bons pediatras, costuma desconfiar dos pacientes que chegam ao mundo anunciando que dispensam todos os exames. E a História, médica severa e pouco impressionável com discursos de maternidade, continua preenchendo prontuários muito depois de cessarem os aplausos da sala de parto.

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