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Breve história das certezas médicas que morreram antes dos pacientes

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    gleniosabbad
  • há 12 horas
  • 7 min de leitura

História da Medicina, falibilidade científica e formação do espírito investigativo

“A certeza médica gozou sempre de excelente saúde. Algumas de suas teorias, nem tanto.”

Por Glênio S Guedes (advogado)


A ideia deste artigo nasceu de uma conversa com médicos amigos. Falávamos de formação profissional, ciência e prática clínica quando fiz uma pergunta que me parecia quase banal:

Como assim não há História da Medicina na grade curricular?

O espanto talvez tenha sido maior de minha parte do que dos médicos. O que, pensando bem, já fazia parte do problema.

Os gregos tinham uma palavra admirável para esse estado de espírito: θαυμάζειν (thaumázein), espantar-se, maravilhar-se diante daquilo que, de tão familiar, deixáramos de interrogar. Platão e Aristóteles fizeram desse espanto uma das nascentes do filosofar. No meu caso, conceda-se a modéstia, o thaumázein veio temperado por algum sarcasmo: ensinamos ao futuro médico a reconhecer doenças, interpretar exames, prescrever medicamentos e manejar tecnologias de crescente sofisticação, mas não necessariamente lhe mostramos como a própria Medicina aprendeu, errou, desaprendeu e tornou a aprender aquilo que hoje lhe ensinamos como verdadeiro.

Desse espanto nasceu a pergunta que orienta estas páginas:

por que a História da Medicina ainda é importante para um médico?

Uma resposta apressada diria que serve para conhecer Hipócrates, Galeno, Vesálio, Harvey, Jenner, Pasteur e outras personagens veneráveis, acomodadas com justiça nos retratos, bustos e nomes de anfiteatros. Seria pouco. Se a História da Medicina servisse apenas para acrescentar datas e defuntos ao já exigente currículo médico, sua ausência talvez não merecesse grande lamento.

Sua importância é outra.


O passado não era um presente mal-informado


Uma das grandes aquisições da historiografia contemporânea foi abandonar a ideia de que o passado constitui mera antessala do presente.

Galeno não passou a vida aguardando que William Harvey corrigisse sua fisiologia. Os médicos que acreditavam nos miasmas tampouco eram bacteriologistas aos quais faltara apenas um microscópio melhor. Cada sistema de conhecimento possuía suas categorias, instrumentos, evidências admissíveis, autoridades e maneiras de explicar o corpo.

O passado, afinal, não sabia que estava a caminho de nós.

E aqui a História da Medicina pode aprender muito com a renovação metodológica experimentada pela historiografia em geral e pela História do Direito em particular. A história linear, feita como marcha triunfal em direção ao presente, tende a escolher no passado aquilo que “venceu” e a relegar o restante ao depósito dos erros. É confortável: o historiador conhece antecipadamente o resultado da partida.

Mas compreender historicamente exige outra coisa.

A pergunta fecunda não é:

— Como puderam acreditar nisso?

É:

— Que razões possuíam para acreditar nisso?

E logo surge uma terceira, bem menos agradável:

— Em que acreditamos hoje pelas mesmas razões?

É nesse instante que a História da Medicina deixa de ser antiquário e se torna epistemologia.


Sangrar para curar


Durante séculos, a sangria pareceu perfeitamente razoável dentro de determinadas concepções fisiológicas. Se a doença resultava do desequilíbrio dos humores, retirar sangue podia constituir intervenção coerente.

Hoje conhecemos o desfecho; eles, não.

Essa assimetria proporciona ao presente uma superioridade retrospectiva bastante confortável. É fácil sorrir do médico setecentista com sua lanceta quando dispomos de antibióticos, imunologia, tomografia computadorizada, biologia molecular e ensaios clínicos randomizados.

Mais instrutivo seria perguntar quais de nossas próprias convicções provocarão igual sorriso nos médicos de 2200.

Provavelmente algumas.

O inconveniente é que ainda não sabemos quais.

A História da Medicina ensina, assim, uma virtude rara: humildade epistemológica sem relativismo. Reconhecer a falibilidade de nosso conhecimento não significa colocar antibióticos e amuletos na mesma prateleira. Significa reconhecer que a superioridade explicativa da ciência não lhe confere infalibilidade — e que nenhuma geração recebeu, por privilégio cronológico, imunidade contra o erro.


Semmelweis e as mãos respeitáveis


Poucos episódios são tão instrutivos quanto o de Ignaz Semmelweis.

Na Viena do século XIX, a febre puerperal matava mulheres em proporções aterradoras. Semmelweis observou diferenças de mortalidade entre clínicas e relacionou a doença à atuação de médicos e estudantes que transitavam das autópsias para o exame das parturientes. A lavagem das mãos com solução clorada fez a mortalidade despencar.

A ironia histórica quase dispensa o escritor: as mãos destinadas a curar transportavam aquilo que matava.

A descoberta, porém, afrontava conhecimentos estabelecidos e hábitos profissionais. Havia ainda algo especialmente desagradável na ideia de que as mãos respeitáveis de um médico pudessem ser veículos de matéria mórbida.

As bactérias, criaturas de escassa sensibilidade hierárquica, não se comoveram.

Semmelweis interessa-nos, contudo, menos como herói solitário enfrentando uma multidão de ignorantes do que como problema epistemológico. A evidência não ingressa numa comunidade científica como verdade coroada. Encontra teorias anteriores, linguagens, instituições, reputações, limitações conceituais, interesses e, eventualmente, aquela fraqueza humana que sobreviveu com notável resistência a todas as revoluções científicas: a vaidade.

Até a narrativa posterior de Semmelweis exige cautela, porque também ela foi simplificada e mitificada. Eis outra pequena maldade da História: até a história daquele que estava certo pode estar errada.


Texto, contexto e bisturi


Aqui surge outra lição importante da historiografia.

Assim como a História do Direito não pode limitar-se à história das leis, a História da Medicina não pode reduzir-se à história das teorias e descobertas médicas.

Entre o tratado e o corpo enfermo existe uma sociedade.

Há hospitais, universidades, governos, guerras, epidemias, laboratórios, indústrias, parteiras, enfermeiros, cirurgiões, farmacêuticos, famílias e pacientes. Há relações econômicas, religiosas, políticas e culturais. Há ricos capazes de escolher tratamentos e pobres cujos corpos, não poucas vezes, serviram à produção do conhecimento. Há mulheres descritas por categorias elaboradas predominantemente por homens; povos colonizados examinados segundo classificações europeias; comportamentos convertidos em patologias e patologias convertidas em problemas de Estado.

A doença possui uma dimensão biológica; a experiência humana da doença jamais é apenas biológica.

Por isso, uma medicina precisa ser compreendida em seus contextos temporal e espacial. Uma teoria do século XVII não pode ser arrancada de seu universo intelectual e convocada a prestar concurso perante uma banca de 2026.

Contextualizar, porém, não significa absolver. Explicar historicamente a sangria não obriga ninguém a recomendá-la. A compreensão histórica não é indulgência epistemológica.

É justamente o contrário: compreender por que um erro pareceu verdadeiro talvez seja mais útil do que simplesmente saber que era falso.


Desnaturalizar o presente


Chegamos, então, à função talvez mais preciosa da História da Medicina na formação médica: desnaturalizar o presente.

O hospital parece natural. A especialização parece natural. O prontuário, o diagnóstico, o consentimento informado, o ensaio clínico, a residência médica, a distinção entre normal e patológico — tudo tende a adquirir a aparência de instituições que sempre estiveram ali, aguardando apenas que a humanidade tivesse o bom senso de descobri-las.

Não estavam.

Tudo isso tem história.

E aquilo que tem história poderia ter sido diferente.

A História permite perceber continuidades, mas também rupturas; permanências, mas igualmente descontinuidades. Impede que confundamos evolução histórica com progresso inevitável e que transformemos o presente no juiz supremo de todas as épocas anteriores.

Essa percepção possui enorme valor para o médico. Se conceitos foram construídos, podem ser criticados. Se classificações mudaram, podem mudar novamente. Se consensos científicos ruíram diante de evidências melhores, nossos próprios consensos devem permanecer racionalmente abertos à revisão.

A História não diminui a autoridade da Medicina.

Diminui apenas sua tentação de converter autoridade em dogma.


Falibilidade não é fraqueza


Convém insistir neste ponto, sobretudo numa época em que a crítica legítima à ciência por vezes é sequestrada para justificar toda espécie de charlatanismo.

Dizer que a ciência é falível não significa dizer que qualquer opinião vale tanto quanto ela.

Significa quase o oposto.

A ciência é extraordinariamente poderosa porque desenvolveu mecanismos destinados a descobrir que estava errada: observação controlada, experimentação, estatística, comparação, revisão crítica, replicação, discussão metodológica e substituição de explicações insuficientes.

Sua grandeza não consiste em jamais errar.

Consiste em organizar institucionalmente a possibilidade de corrigir o erro.

Uma doutrina incapaz de admitir refutação pode proporcionar ao espírito humano uma tranquilidade magnífica. A ciência oferece coisa melhor e um tanto menos confortável: dúvida disciplinada.

É precisamente aí que a História da Medicina deveria integrar a formação do médico, não como adorno humanístico destinado às horas em que se descansa da ciência, mas como parte da própria educação científica.

Ela ensina a perguntar, diante de uma afirmação consagrada: como sabemos?

Diante de uma correlação: qual é a causa?

Diante de uma autoridade: quais são as evidências?

Diante de uma evidência: que outra hipótese poderia explicá-la?

Diante de um consenso: o que seria capaz de modificá-lo?

E, sobretudo, diante da própria convicção:

— Que evidência me faria reconhecer que estou errado?

Talvez nenhuma pergunta seja mais científica.

Nem mais difícil.


Para que serve, afinal, a História da Medicina?


Voltemos à conversa entre amigos da qual nasceu este artigo.

A pergunta inicial era quase curricular: como pode a formação médica prescindir da História da Medicina?

Agora podemos responder.

Ela serve para ensinar ao médico que sua ciência não caiu pronta do céu; que conceitos possuem genealogias; que instituições possuem contingências; que autoridades podem errar; que consensos podem envelhecer; que evidências precisam ser interpretadas; que teorias só podem ser plenamente compreendidas dentro dos mundos intelectuais que as produziram.

Serve, sobretudo, para formar aquilo que nenhuma tecnologia poderá substituir facilmente: o espírito investigativo.

Estudar História da Medicina não é perguntar aos mortos por que ainda não sabiam aquilo que sabemos. É perguntar por que sabiam aquilo que julgavam saber.

A diferença é imensa.

Na primeira atitude, o presente senta-se no tribunal e julga o passado. Na segunda, investiga os mecanismos pelos quais seres humanos constroem certezas — e percebe, com algum desconforto, que continuamos sendo os mesmos seres humanos.

Talvez seja essa a maior utilidade das certezas médicas depois que morrem.

Servem de espelho.

Os humores recolheram-se aos livros. A sangria perdeu seu prestígio. Os miasmas evaporaram-se. Muitas outras convicções seguiram-nos, algumas com a mesma solenidade com que haviam chegado.

A certeza médica, entretanto, continua gozando de excelente saúde.

Convém examiná-la periodicamente.


Moral da história: a História da Medicina não ensina apenas aquilo que os médicos do passado não sabiam; ensina o médico do presente a perguntar como sabe aquilo que pensa saber.

 
 
 

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