A estranha epidemia das verbas idiopáticas
- gleniosabbad
- 31 de jul.
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Algumas doenças desafiam a ciência. Certos desvios parecem desafiar apenas a memória.
"Os médicos escrevem a palavra 'idiopática' quando lhes falta certeza. Há quem pareça escrevê-la quando lhe sobra conveniência."
Por Glênio S Guedes (advogado)
Sempre admirei os médicos por uma virtude que, receio, não recebeu o reconhecimento merecido da Filosofia. Quando desconhecem a causa de uma doença, não recorrem à imaginação. Tampouco convocam conferências de imprensa para anunciar certezas provisórias. Escrevem, com uma honestidade quase desarmante, uma única palavra: idiopática.
A etimologia ajuda a compreender a elegância do gesto. Vinda do grego, a expressão combina ídios — próprio, peculiar — e páthos — sofrimento, afecção. Na prática clínica contemporânea, significa que a causa primária da doença ainda não foi estabelecida. Não representa derrota da Medicina; representa, antes, sua humildade epistemológica. É a ciência declarando, sem constrangimento, que continua investigando.
Poucas palavras são tão nobres.
Foi então que surgiu uma ideia cuja responsabilidade atribuo exclusivamente à curiosidade, jamais ao bom senso.
Imaginei quanto trabalho seria poupado se determinadas repartições públicas resolvessem adotar semelhante terminologia.
Verba idiopática.
Contrato idiopático.
Patrimônio inesperadamente ampliado por mecanismos idiopáticos.
Desaparecimento documental de etiologia idiopática.
Licitação acometida por súbita síndrome idiopática.
A princípio, confesso, a proposta pareceu-me extravagante. Depois passei a acompanhar algumas notícias e comecei a suspeitar de que a realidade já caminhava discretamente nessa direção.
A Medicina utiliza a palavra quando ainda procura a causa.
Certos discursos parecem empregá-la quando já desistiram de procurá-la.
Convém registrar, para não cometer injustiça com os médicos, que a verdadeira idiopatia não significa ausência definitiva de explicação. Muitas doenças outrora classificadas como idiopáticas deixaram de sê-lo à medida que a pesquisa avançou. A ciência não transforma a ignorância em residência permanente; trata-a como hospedagem provisória.
É uma diferença considerável.
Na investigação científica, "não sabemos" costuma ser o início do trabalho.
Na vida pública, por vezes parece funcionar como seu encerramento.
Não seria impossível imaginar um congresso internacional dedicado às novas enfermidades administrativas.
Haveria mesas-redondas sobre a síndrome da responsabilidade migratória, na qual toda decisão importante se desloca misteriosamente para a mesa vizinha.
Especialistas debateriam a amnésia seletiva aguda, caracterizada pela incapacidade de recordar reuniões, assinaturas e conversas justamente quando elas se tornam processualmente relevantes.
Também mereceria atenção a insuficiência crônica de autoria, enfermidade na qual obras aparecem, despesas se multiplicam, recursos desaparecem e, ainda assim, nenhum organismo parece produzir o agente causal.
Talvez a mais estudada de todas fosse a etiologia difusa das verbas públicas, curiosa afecção segundo a qual o dinheiro percorre caminhos perfeitamente identificáveis, enquanto as responsabilidades insistem em viajar por rotas invisíveis.
Os médicos provavelmente protestariam.
Com razão.
Sua palavra foi criada para reconhecer os limites do conhecimento, não para ampliar os limites da conveniência.
Enquanto o pesquisador chama de idiopática uma doença para continuar investigando, certas narrativas parecem chamar de idiopático tudo aquilo que prefeririam não investigar muito.
É uma diferença pequena na gramática e gigantesca na ética.
Talvez por isso a Medicina inspire tanta confiança. Ela sabe que nenhuma hipótese melhora apenas porque foi repetida com convicção. Exige evidências, revisa conclusões, corrige equívocos e, quando necessário, admite ignorância. A ciência progride exatamente porque não confunde desconhecimento com desculpa.
As instituições, como os organismos vivos, também adoecem. A diferença é que seus exames raramente dependem de tomografia, ressonância ou microscópio. Bastam documentos, transparência, memória e a modesta disposição de seguir os fatos até onde eles conduzam.
Ao final desta reflexão, permanece uma discreta inveja dos médicos.
Eles escrevem "idiopática" esperando que algum pesquisador elimine um dia essa palavra do prontuário.
Em certos ambientes, parece haver quem trabalhe exatamente para que ela jamais precise ser retirada.
Talvez seja essa a diferença entre uma ciência e uma desculpa.
A primeira chama de idiopático aquilo cuja causa ainda desconhece.
A segunda parece chamar de idiopático aquilo cuja causa alguns prefeririam continuar desconhecendo.

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