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Ser de Direita ou de Esquerda Importa Menos do que Ser Incapaz de Dialogar com a Complexidade

  • Foto do escritor: gleniosabbad
    gleniosabbad
  • 18 de jun.
  • 6 min de leitura

Edgar Morin, Hannah Arendt e Leor Zmigrod diante da crise contemporânea do pensamento político

“Talvez a verdadeira divisão do nosso tempo não esteja entre direita e esquerda. Talvez esteja entre aqueles que suportam a complexidade e aqueles que fogem dela.”

Dedicatória

Dedico este artigo à inteligência humana como forma de combate à rigidez cognitiva; aos homens e mulheres que conservam a coragem de duvidar das próprias certezas; e àqueles que, em tempos de trincheiras ideológicas, ainda preferem a difícil companhia das perguntas ao confortável abrigo das respostas definitivas.


Por Glênio S Guedes (advogado)


Uma pergunta talvez mal formulada


Poucas perguntas parecem tão frequentes no século XXI quanto esta: és de direita ou de esquerda?

Ela surge nos jornais, nas universidades, nos parlamentos, nos tribunais, nas redes sociais e até mesmo nas mesas de família. Tornou-se uma espécie de senha de reconhecimento. Antes de saber o que alguém pensa, deseja-se saber a qual campo pertence.

Mas talvez a pergunta esteja mal formulada.

Não porque direita e esquerda não existam. Existem. Possuem tradições intelectuais respeitáveis, autores brilhantes, acertos históricos e fracassos igualmente memoráveis. Ignorá-las seria tão imprudente quanto ignorar montanhas num mapa.

A questão decisiva, contudo, pode estar em outro lugar.

Talvez o problema central não seja a posição ocupada no espectro político, mas a forma pela qual a mente habita essa posição.

Pode-se ser conservador sem ser dogmático.

Pode-se ser progressista sem ser dogmático.

Pode-se ser liberal sem ser dogmático.

Pode-se ser socialista sem ser dogmático.

E pode-se transformar qualquer dessas posições numa fortaleza impermeável à realidade.

É precisamente nesse ponto que a obra de Leor Zmigrod oferece uma das contribuições intelectuais mais provocadoras dos últimos anos.


O que a ciência do cérebro ideológico descobriu


Durante muito tempo, os estudiosos da política procuraram compreender por que certas pessoas aderem a determinadas ideologias.

Leor Zmigrod desloca a pergunta.

Em vez de investigar apenas o conteúdo das crenças, ela examina a relação cognitiva estabelecida com essas crenças.

A sua conclusão é desconfortável.

O problema nem sempre reside nas ideias. Muitas vezes reside na rigidez com que elas são sustentadas.

O cérebro ideológico não é necessariamente um cérebro de direita nem de esquerda. É um cérebro que passa a operar por categorias fechadas, esquemas rígidos e fronteiras mentais impermeáveis.

A questão deixa de ser apenas o que pensamos.

Passa a ser como pensamos.

A rigidez cognitiva, segundo a autora, pode manifestar-se sob bandeiras opostas, símbolos distintos e discursos contraditórios. A forma mental permanece semelhante, ainda que o conteúdo ideológico mude.


Edgar Morin e a dificuldade de conviver com o real


Décadas antes das pesquisas de neurociência política, Edgar Morin já advertia para os perigos do pensamento simplificador.

A realidade, ensinava ele, não é simples.

Ela é complexa porque resulta da interação contínua entre fatores econômicos, psicológicos, culturais, históricos, biológicos e institucionais.

O pensamento simplificador procura reduzir essa riqueza a uma única causa.

Tudo passa a ser explicado pelo mercado.

Ou pelo Estado.

Ou pela religião.

Ou pela ausência de religião.

Ou pelo capitalismo.

Ou pelo socialismo.

A vantagem dessas fórmulas é a sua elegância.

A desvantagem é a sua falsidade.

A realidade possui o hábito inconveniente de ser mais complexa do que os slogans.

E talvez seja precisamente essa complexidade que as ideologias rígidas procuram eliminar.


Hannah Arendt e a pluralidade humana


Hannah Arendt observou que a liberdade política depende da pluralidade.

Nenhum ser humano contempla o mundo inteiro. Cada indivíduo ocupa apenas uma perspectiva.

Por isso, a vida pública exige a convivência entre olhares distintos.

Quando essa pluralidade desaparece, surge a tentação da certeza absoluta.

O adversário deixa de ser alguém que discorda.

Passa a ser alguém cuja existência intelectual parece intolerável.

A partir desse momento, a política aproxima-se perigosamente da religião dogmática.

Mudam os símbolos.

Mudam os vocábulos.

Mas permanece a divisão entre ortodoxos e hereges.

A história demonstra que quase todas as formas de autoritarismo começaram por essa simplificação.


O Direito como antídoto contra a certeza absoluta


Talvez o Direito seja uma das maiores invenções humanas precisamente porque parte da desconfiança em relação às certezas.

O contraditório existe porque ninguém possui acesso exclusivo à verdade.

A ampla defesa existe porque os factos admitem múltiplas interpretações.

Os recursos existem porque juízes podem errar.

Os tribunais colegiados existem porque inteligências diferentes podem perceber aspectos distintos da mesma questão.

Sob essa perspectiva, o Estado de Direito não é apenas uma estrutura política.

É também uma tecnologia cognitiva.

Quando uma decisão nasce pronta antes da análise dos argumentos, o processo transforma-se numa encenação.

Quando uma ideologia fornece previamente todas as respostas, a investigação deixa de ser investigação.

A justiça começa a definhar quando a conclusão precede a pergunta.

Existe, portanto, uma afinidade profunda entre ciência, democracia e Direito: todas dependem da consciência da falibilidade humana.


Quando a complexidade é expulsa da História


A história raramente oferece exemplos de sociedades destruídas pelo excesso de dúvida.

Em compensação, fornece abundantes exemplos de sociedades feridas pelo excesso de certeza.

O nacional-socialismo alemão acreditou possuir uma explicação definitiva para os problemas da nação. A realidade foi reduzida a uma narrativa racial simplificada.

O stalinismo soviético, embora situado em posição ideológica oposta, operou por mecanismo semelhante. Também acreditou possuir uma chave única para interpretar a História.

A Revolução Cultural chinesa repetiu o padrão. Livros, professores, tradições e memórias tornaram-se suspeitos porque a complexidade passou a ser vista como ameaça.

Seria confortável imaginar que esses fenómenos pertencem ao passado.

Infelizmente, a natureza humana raramente respeita calendários.

As formas mudam.

Os mecanismos permanecem.


A ironia do século XXI


Jamais tivemos acesso a tanta informação.

Jamais possuímos tantos instrumentos para consultar perspectivas divergentes.

E, paradoxalmente, talvez nunca tenha sido tão fácil viver dentro de câmaras de eco.

As plataformas digitais descobriram algo que os propagandistas de outros séculos apenas intuíram: os seres humanos gostam de ouvir aquilo em que já acreditam.

A confirmação produz prazer.

A discordância produz desconforto.

Por isso, frequentemente não procuramos informação.

Procuramos validação.

A diferença é imensa.

A informação amplia horizontes.

A validação estreita-os.

A antiga praça pública transformou-se, não raro, numa galeria de espelhos.


O caso brasileiro: entre convicções e tribos


O Brasil oferece um laboratório privilegiado para observar esse fenômeno.

Em poucas décadas, assistimos ao crescimento simultâneo da polarização política e da desconfiança institucional.

Uma decisão do Supremo.

Uma reforma tributária.

Uma investigação criminal.

Uma política ambiental.

Os mesmos factos produzem interpretações radicalmente distintas.

O fenômeno não decorre necessariamente de ignorância. Muitas vezes decorre de filtros cognitivos diferentes.

Talvez a questão decisiva não seja descobrir quem está integralmente certo ou integralmente errado.

Talvez seja perguntar se ainda preservamos a capacidade de ouvir argumentos que desafiam as nossas convicções.

A democracia depende menos da unanimidade do que da existência de desacordos civilizados.

Quando o adversário deixa de ser visto como cidadão e passa a ser visto como ameaça existencial, o debate político aproxima-se perigosamente da lógica das guerras religiosas.


O verdadeiro desafio


Talvez o grande desafio político do nosso tempo não seja produzir novas ideologias.

Talvez seja produzir maior flexibilidade cognitiva.

Isso não significa ausência de convicções.

A caricatura segundo a qual toda firmeza seria dogmatismo é tão simplificadora quanto o próprio dogmatismo.

Existem valores que merecem ser defendidos.

Existem injustiças que exigem resistência.

Existem princípios pelos quais vale a pena lutar.

Mas defender uma convicção não exige transformá-la numa prisão.

A firmeza moral não depende da rigidez intelectual.

Pelo contrário.

As grandes tradições filosóficas floresceram precisamente porque souberam revisar as próprias premissas.

A ciência progride porque admite a possibilidade do erro.

A democracia sobrevive porque admite a legitimidade da divergência.

A filosofia permanece viva porque recusa a resposta final.


Uma nova divisão do mundo


Talvez a grande divisão do nosso tempo não seja entre conservadores e progressistas.

Nem entre liberais e socialistas.

Nem entre direita e esquerda.

Talvez a divisão mais profunda seja entre aqueles que conseguem conviver com a complexidade e aqueles que necessitam desesperadamente simplificá-la.

Entre aqueles que suportam a incerteza e aqueles que exigem certezas absolutas.

Entre aqueles que conseguem revisar convicções e aqueles que confundem mudança de opinião com derrota moral.

Entre aqueles que dialogam e aqueles que apenas classificam.

O futuro das sociedades livres dependerá menos da vitória desta ou daquela corrente ideológica do que da capacidade coletiva de preservar espaços em que a dúvida continue a ser possível.

Porque a liberdade começa a desaparecer não quando alguém muda de opinião.

Mas quando deixa de admitir que poderia mudá-la.


Conclusão


Ser de direita ou de esquerda continua a importar.

Importa para as políticas públicas que defendemos.

Importa para as instituições que valorizamos.

Importa para os projetos de sociedade que imaginamos.

Mas importa menos do que frequentemente supomos.

Mais importante é a forma pela qual habitamos essas posições.

Uma ideologia pode ser uma ferramenta de interpretação.

Pode também tornar-se uma cela.

A diferença não está necessariamente na doutrina.

Está na disposição de reconhecer que a realidade é maior do que qualquer doutrina.

Talvez a maturidade política não consista em viver sem convicções.

Talvez consista em habitar as convicções sem lhes entregar a totalidade da nossa liberdade intelectual.

O objetivo não é construir um ser humano sem crenças.

É formar um ser humano capaz de revisá-las quando a realidade o exigir.

Num tempo em que tantos procuram respostas definitivas, talvez a verdadeira coragem intelectual consista em conservar a capacidade de pensar de outro modo.

E talvez a verdadeira divisão do nosso século não esteja entre direita e esquerda.

Talvez esteja entre aqueles que suportam a complexidade e aqueles que fogem dela.


Bibliografia


ZMIGROD, Leor. O Cérebro Ideológico: uma ciência radical das mentes suscetíveis. Tradução de Jorge Pereirinha Pires. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2025. ISBN 978-972-20-8642-4.

 
 
 

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