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Hiperconectividade e hiperdesigualdade: por que Milton Santos ainda nos é atual e relevante?

  • Foto do escritor: gleniosabbad
    gleniosabbad
  • 10 de mai.
  • 5 min de leitura

Por Glênio S Guedes (advogado)


Existe certa ironia — dessas que a história cultiva com paciência quase literária — no fato de que um dos maiores intérpretes do mundo contemporâneo tenha vindo de uma periferia geográfica e social que o próprio sistema insistia em tratar como margem. O século XXI, tão enamorado de seus cabos submarinos, satélites, algoritmos e plataformas digitais, talvez não tenha percebido ainda que muito do que hoje chama de “novidade disruptiva” já havia sido intuído, com impressionante antecedência, por um geógrafo baiano que compreendeu o espaço não como cenário, mas como destino político.

Milton Santos permanece atual porque viu, antes de muitos, que a globalização não era apenas um fenômeno econômico. Era, sobretudo, uma reorganização planetária do poder através da técnica.

E talvez aí resida sua grandeza intelectual: enquanto boa parte do mundo acadêmico se distraía entre estatísticas encantadas e gráficos de crescimento — aqueles hieróglifos modernos diante dos quais certos economistas ajoelham-se com devoção quase sacerdotal — Milton observava o território. Observava as cidades. Observava os fluxos. Observava os homens lentos.

Sim: os homens lentos.

Enquanto o mundo celebrava a velocidade, ele examinava os que ficavam à margem dela. Enquanto as elites falavam da integração universal dos mercados, ele olhava para camelôs, trabalhadores informais, pequenos comerciantes, migrantes urbanos, periferias, favelas, economias subterrâneas, sobrevivências inventivas. E percebeu algo decisivo: os pobres não estavam fora da globalização. Estavam dentro dela — mas de maneira subordinada, precária e profundamente desigual.

Essa percepção talvez seja hoje mais atual do que nunca.

Vivemos na era da hiperconectividade. Nunca houve tanta circulação de dados, imagens, mercadorias e informações. O planeta pulsa em tempo real. Um clique em São Paulo produz efeitos financeiros em Singapura; uma crise logística no Mar Vermelho altera preços em Bogotá; uma decisão algorítmica tomada em algum escritório climatizado do Vale do Silício reorganiza jornadas de trabalho em Recife, Nairobi ou Cidade do México.

E, no entanto, jamais convivemos com desigualdades tão obscenas.

O mesmo smartphone que permite acesso instantâneo ao mundo tornou-se também instrumento de vigilância econômica, precarização laboral e captura comportamental. A técnica, que prometia emancipação universal, frequentemente converteu-se em mecanismo sofisticado de concentração de renda e poder.

Milton Santos viu isso chegando.

Sua reflexão sobre o chamado “meio técnico-científico-informacional” talvez seja uma das formulações mais visionárias já produzidas no pensamento social latino-americano. O geógrafo compreendeu que o capitalismo contemporâneo não se organiza apenas pela posse dos meios clássicos de produção, mas pelo controle dos sistemas técnicos, informacionais e logísticos que articulam o planeta.

Quem controla a técnica controla os fluxos. Quem controla os fluxos controla o território. Quem controla o território controla as possibilidades da vida social.

Hoje, basta trocar alguns substantivos para perceber o alcance profético dessa leitura: plataformas digitais, inteligência artificial, big data, computação em nuvem, chips semicondutores, satélites, cabos oceânicos, sistemas de pagamento, redes financeiras globais.

O século XXI apenas sofisticou as engrenagens daquilo que Milton já percebia em gestação.

Mas sua atualidade não repousa apenas na crítica da globalização. Ela se manifesta, sobretudo, na extraordinária potência explicativa de sua teoria dos dois circuitos da economia urbana.

Trata-se de uma das mais brilhantes interpretações já formuladas sobre o capitalismo periférico.

Milton compreendeu que as cidades dos países subdesenvolvidos não poderiam ser interpretadas a partir dos modelos europeus clássicos. Havia nelas uma lógica própria, marcada pela coexistência assimétrica de dois circuitos econômicos.

De um lado, o circuito superior: capitalizado, tecnologicamente avançado, integrado aos fluxos globais, conectado ao grande capital financeiro e industrial.

De outro, o circuito inferior: informal, fragmentado, improvisado, intensamente dependente da criatividade cotidiana e das estratégias de sobrevivência popular.

O que impressiona é que essa teoria, formulada décadas atrás, parece descrever com precisão desconcertante o presente.

O entregador de aplicativo que pedala doze horas por dia guiado por um algoritmo invisível; a manicure que vende serviços pelo Instagram; o pequeno comerciante dependente do crédito rotativo; o motorista submetido às plataformas digitais; o vendedor ambulante que opera via PIX; o microempreendedor eternamente endividado para continuar consumindo e produzindo — todos eles pertencem, de algum modo, à reorganização contemporânea desse circuito inferior.

Mas Milton jamais tratou o circuito inferior como simples resíduo do atraso. Eis um de seus maiores méritos intelectuais.

Para ele, a pobreza não era uma sobra acidental do sistema: era produzida estruturalmente pelo próprio modelo de modernização. O circuito inferior nasce precisamente das contradições da modernização seletiva.

A modernidade, afinal, distribui vitrines com muito mais eficiência do que distribui renda.

Eis uma das ironias mais elegantes do capitalismo contemporâneo: o pobre tornou-se consumidor global antes de tornar-se plenamente cidadão.

Ele consome marcas internacionais, assina plataformas digitais, compra em marketplaces transnacionais, participa do fluxo global de imagens e desejos — mas permanece frequentemente excluído das garantias fundamentais de estabilidade econômica, proteção trabalhista e mobilidade social efetiva.

A globalização integrou mercados; não necessariamente integrou dignidades.

Milton Santos desmonta, então, uma das grandes ficções ideológicas do nosso tempo: a crença de que o avanço técnico produz automaticamente progresso humano.

Não produz.

A técnica não é neutra. Nunca foi.

Ela pode libertar ou subordinar. Democratizar ou concentrar. Aproximar ou excluir. Tudo depende das relações de poder que organizam seu uso.

E talvez seja justamente aqui que Milton mais nos ajuda a compreender o mundo contemporâneo.

Porque vivemos hoje sob uma curiosa forma de fatalismo tecnológico. Muitos passaram a falar dos algoritmos como antigos astrólogos falavam das estrelas: com reverência, mistério e resignação. Há executivos que mencionam “o mercado” com o mesmo tom litúrgico com que sacerdotes medievais evocavam desígnios celestiais. O algoritmo decidiu. A plataforma exige. A lógica do sistema impõe.

Milton recusaria esse determinismo.

Para ele, o espaço é histórico. E tudo aquilo que é histórico pode ser transformado.

Essa talvez seja sua herança mais poderosa: a recusa do pensamento único.

Num mundo cada vez mais uniformizado por narrativas globais, Milton insistiu na pluralidade das experiências humanas. Contra a homogeneização planetária do consumo e da informação, reafirmou a força do lugar — não como espaço folclórico ou provinciano, mas como território vivido, carregado de memória, solidariedade, conflito e reinvenção.

O lugar, em Milton, não é apenas geografia. É resistência.

E isso ajuda a explicar por que sua obra permanece tão viva entre aqueles que procuram compreender periferias urbanas, economias populares, desigualdades territoriais, financeirização, plataformas digitais, colonialismo tecnológico e novas formas de subordinação global.

Sua reflexão atravessa a geografia, a sociologia, a economia política, as relações internacionais, os estudos urbanos, a filosofia da técnica e até os debates contemporâneos sobre inteligência artificial.

Poucos pensadores brasileiros alcançaram semelhante universalidade.

E há ainda outro aspecto frequentemente negligenciado: Milton Santos foi um intelectual do Sul Global que recusou tanto o provincianismo ressentido quanto a submissão cultural. Dialogou com o mundo sem abandonar o território concreto das desigualdades periféricas. Pensou universalmente a partir da experiência histórica dos países subdesenvolvidos.

Isso é raro.

Muito raro.

Há intelectuais que conhecem Paris, mas ignoram suas próprias periferias. Outros conhecem as periferias, mas transformam o ressentimento em método. Milton evitou ambos os extremos. Conservou a sofisticação teórica sem perder a materialidade do mundo concreto.

Talvez por isso sua obra permaneça tão desconfortavelmente atual.

Porque ela nos obriga a reconhecer que a hiperconectividade não aboliu a desigualdade: sofisticou-a.

O planeta tornou-se instantâneo, mas não necessariamente mais justo.

As tecnologias encurtaram distâncias físicas enquanto ampliavam distâncias econômicas. A informação circula com velocidade inédita, mas continua profundamente concentrada. O consumo tornou-se global; a cidadania, nem tanto.

Milton Santos compreendeu que o futuro não chega igualmente para todos.

Em certos bairros, ele desembarca em forma de inteligência artificial, carros autônomos e automação financeira. Em outros, chega apenas como endividamento, informalidade e precarização digitalizada.

Eis por que sua obra continua indispensável.

Ela nos ensina que compreender o mundo exige olhar não apenas para os fluxos do capital, mas também para os territórios onde esses fluxos se materializam. Exige observar quem ganha velocidade — e quem paga o preço dela.

Num tempo em que tantos celebram o mundo conectado como se estivéssemos às portas inevitáveis de uma civilização plenamente racional, Milton Santos permanece lembrando algo profundamente humano, e talvez profundamente incômodo: nenhuma técnica, por mais sofisticada que seja, substituirá a necessidade política de decidir para quem o mundo deve funcionar.

 
 
 

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