Entre teleologia e teleonomia: o destino contemporâneo do Isso à luz da neurociência
- gleniosabbad
- 15 de abr.
- 4 min de leitura
Uma releitura neurofilosófica da teoria psicossomática de Groddeck
Por Glênio S Guedes (advogado)
1. Introdução: quando o corpo parece ter intenções
Georg Groddeck formulou uma ideia desconcertante: o homem não vive — ele é vivido. Com isso, ele queria dizer que há algo em nós — que ele chama de “Isso” (Es) — que dirige tanto nossa vida psíquica quanto nosso corpo.
Mas o ponto mais provocador é outro: para Groddeck, a doença não é apenas um defeito do organismo. Ela pode ter um sentido. Pode funcionar como resposta, adaptação ou até “solução” para conflitos internos.
Aqui surge o problema central deste artigo.
Se a doença tem um “sentido”, isso significa que ela tem uma finalidade? E, se tem finalidade, estamos dizendo que o corpo “quer” adoecer?
A filosofia chama isso de teleologia — explicação baseada em finalidade ou intenção.
Já a ciência contemporânea prefere outro conceito: teleonomia, que significa funcionamento orientado, mas sem intenção consciente. Um exemplo simples: o coração “serve” para bombear sangue, mas não “decide” fazê-lo.
A pergunta que orienta este trabalho é:
O “Isso” de Groddeck descreve uma finalidade real do organismo ou pode ser reinterpretado como uma forma antiga de descrever processos regulatórios que hoje a neurociência explica sem recorrer à ideia de intenção?
A resposta que será defendida é a seguinte: o “Isso” não sobrevive como entidade real com vontade própria, mas continua útil como ferramenta de interpretação, uma espécie de metáfora que ajuda a compreender como corpo e mente funcionam juntos.
2. O que Groddeck quis dizer com o “Isso”?
Groddeck observa algo simples, mas profundo: muitas vezes, o corpo reage de maneiras que não controlamos :
adoecemos sem querer;
sentimos sintomas sem causa clara;
repetimos comportamentos que nos prejudicam.
A partir disso, ele propõe três ideias fundamentais:
Não há separação entre mente e corpo O que sentimos e o que o corpo faz estão profundamente conectados.
O sintoma não é apenas um erro Ele pode ser uma resposta do organismo a alguma situação.
O eu não é plenamente soberano Não controlamos tudo o que acontece em nós.
Para dar nome a essa força que nos atravessa, Groddeck usa o termo “Isso”.
O problema é que ele descreve esse “Isso” como se tivesse intenção:
ele “quer”;
ele “provoca”;
ele “escolhe” a doença.
É justamente essa linguagem que precisa ser analisada com cuidado.
2.1 O “Isso” de Groddeck não é o mesmo que o “Id” de Freud
À primeira vista, “Isso” (Groddeck) e “Id” (Freud) parecem iguais. Não são.
Em Freud, o Id é uma parte da mente. Ele faz parte de um sistema com três elementos:
Id (instintos),
Ego (consciência),
Superego (normas).
É um modelo psicológico.
Já em Groddeck, o “Isso” é muito mais amplo. Ele não é uma parte da mente — ele é aquilo que atravessa tudo:
mente,
corpo,
sintomas,
doenças.
Podemos dizer, de forma simples:
Freud descreve um sistema psicológico;
Groddeck descreve uma força que envolve o organismo inteiro.
Essa diferença é essencial, porque o problema da teleologia aparece muito mais em Groddeck do que em Freud.
2.2 E Lacan? Uma terceira posição
Lacan traz outra forma de pensar o inconsciente.
Para ele, o que organiza nossa vida não é o corpo, mas a linguagem. O sujeito é formado por palavras, símbolos, significados.
Assim:
para Lacan, o sintoma é uma “mensagem”;
para Groddeck, o sintoma é também um “evento do corpo”.
A neurociência contemporânea, como veremos, dialoga mais com essa segunda ideia — mas sem aceitar que o corpo tenha intenções.
3. O que a neurociência diz hoje?
A ciência atual não aceita que o corpo “queira” algo. Mas ela mostra algo igualmente interessante: o organismo se regula o tempo todo.
3.1 Alostase: o corpo se ajusta
O corpo tenta manter equilíbrio. Quando algo muda, ele reage.
Exemplo simples:
estresse → aumento de hormônios;
infecção → inflamação;
perigo → ativação do sistema nervoso.
Essas reações podem parecer problemas, mas muitas vezes são tentativas de proteção.
3.2 Interocepção: sentimos o corpo por dentro
O cérebro monitora o corpo o tempo todo:
batimentos cardíacos,
respiração,
tensão muscular.
Esses sinais influenciam emoções e decisões.
Ou seja: não existe mente separada do corpo.
3.3 Cérebro preditivo: o cérebro antecipa
O cérebro tenta prever o que vai acontecer.
Se algo foge do esperado, ele ajusta o corpo.
Às vezes, esse ajuste gera sintomas.
Exemplo:
dor crônica sem lesão → o cérebro “aprendeu” um padrão de dor.
Aqui vemos algo importante:
o sintoma pode ser produzido pelo próprio sistema como forma de regulação.
4. Onde Groddeck acerta — e onde precisa ser corrigido
✔ Onde ele acerta
O corpo e a mente estão integrados.
O sintoma pode ser uma resposta ativa.
O sujeito não é totalmente consciente de si.
⚠ Onde ele exagera
Atribui intenção ao organismo.
Trata toda doença como simbólica.
Generaliza além do que a ciência permite.
Por isso, precisamos reinterpretá-lo.
5. O “Isso” como metáfora útil
Em ciência, usamos metáforas para entender fenômenos complexos.
O “Isso” pode ser visto como uma dessas metáforas.
Ele não explica causas biológicas, mas ajuda a pensar:
o corpo como sistema ativo;
a relação entre história pessoal e sintomas;
a integração mente-corpo.
Além disso, na prática clínica, o sintoma não é apenas físico: ele também tem significado para o sujeito.
6. E o Direito? Surge o neurodireito
Se não somos totalmente conscientes, o que acontece com a responsabilidade?
A neurociência mostra que decisões começam antes da consciência. Mas isso não elimina a responsabilidade — apenas a torna mais complexa.
O Direito continua julgando pessoas, não neurônios.
Ao mesmo tempo:
alterações cerebrais podem afetar comportamento;
o controle não é absoluto.
O desafio é equilibrar:
ciência (como funcionamos),
e norma (como devemos agir).
7. Conclusão: entre finalidade e regulação
Voltamos ao título.
Entre teleologia (finalidade) e teleonomia (regulação), o “Isso” ocupa um lugar intermediário.
Ele não é uma entidade real com vontade própria. Mas também não é uma ideia inútil.
Ele permanece como:
uma forma de questionar o dualismo;
uma maneira de pensar o corpo como ativo;
uma provocação contra a ideia de controle absoluto.
Talvez sua maior contribuição seja esta:
lembrar que o ser humano não é totalmente transparente para si mesmo.
E que, muitas vezes, o corpo — silencioso, insistente — continua dizendo coisas que ainda estamos aprendendo a compreender.

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