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Elon Musk talvez nunca tenha enfrentado uma fila do INSS

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    gleniosabbad
  • 11 de mai.
  • 5 min de leitura

Reflexões sobre IA, informalidade e proteção social na periferia do capitalismo


“A proteção ao trabalhador, até então voluntária, feita por aqueles que se preocupavam com a dignidade humana, muitas vezes só existia sob a forma de caridade.” — CASTRO, Carlos Alberto Pereira de; LAZZARI, João Batista. Manual de Direito Previdenciário. 29. ed. rev., atual. e reform. Rio de Janeiro: Forense, 2026, p. 7.


Por Glênio S Guedes (advogado)


Há certos homens cuja fortuna lhes permite contemplar o futuro como quem observa o mar do alto de uma varanda silenciosa. O mundo, visto dali, parece racional, geométrico, inevitável. Os ruídos da rua desaparecem. Não se escuta o ônibus lotado. Não se percebe o crediário vencido. Não se sente o joelho do pedreiro aos sessenta e três anos, nem a coluna da enfermeira aos cinquenta e oito. O sofrimento humano, quando muito, transforma-se em estatística. A precariedade converte-se em gráfico. A angústia social adquire o formato elegante de “transição tecnológica”.

Foi nesse espírito que Elon Musk aventou recentemente a hipótese de um mundo em que trabalhar se tornaria opcional, o dinheiro perderia relevância e robôs realizariam praticamente toda a produção necessária à vida humana. A declaração percorreu o planeta com a velocidade habitual das profecias tecnológicas: uma mistura de fascínio, marketing futurista e escatologia digital. Poucas coisas encantam mais o século XXI do que anunciar o fim daquilo que ainda nem sequer conseguimos universalizar.

E aqui começa o grande impasse.

O debate sobre o “fim do trabalho” ocorre num planeta em que milhões de pessoas jamais chegaram propriamente ao começo da estabilidade laboral. Em boa parte do mundo periférico — e o Brasil conhece bem essa geografia moral — o trabalho ainda não se converteu em segurança, mas apenas em sobrevivência provisória.

É curioso observar como certas utopias tecnológicas nascem precisamente nos lugares onde a proteção social já alcançou níveis civilizatórios relativamente elevados. O bilionário californiano imagina uma sociedade pós-trabalho enquanto o trabalhador informal latino-americano ainda tenta descobrir como envelhecer sem transformar a velhice em punição biológica.

A ironia é fina.

O Vale do Silício discute se a inteligência artificial abolirá a necessidade de emprego; a periferia do capitalismo ainda procura emprego com carteira assinada.

E não se trata de mero detalhe sociológico. Trata-se do núcleo da tensão previdenciária contemporânea.

Durante décadas, os sistemas previdenciários foram construídos sobre uma premissa relativamente simples: trabalhadores ativos financiariam, por meio de contribuições contínuas, a proteção daqueles que já não pudessem trabalhar. Era um pacto intergeracional sustentado por três pilares silenciosos:


  • emprego relativamente estável;

  • crescimento econômico;

  • e massa salarial minimamente previsível.


O século XXI, entretanto, decidiu divertir-se demolindo essas três colunas simultaneamente.

A automação avança. A pejotização multiplica-se. A informalidade reinventa-se em linguagem de aplicativo. O motorista virou “parceiro”. O entregador converteu-se em “microempreendedor”. O vínculo empregatício passou a ser tratado quase como extravagância arqueológica.

Naturalmente, a tecnologia trouxe ganhos reais. Negá-los seria puerilidade nostálgica. A inteligência artificial promete aumentar produtividade, reduzir custos, acelerar diagnósticos médicos, ampliar eficiência logística e revolucionar setores inteiros da economia. O dilema não reside na tecnologia em si. O dilema está na distribuição social dos frutos dessa tecnologia.

Porque máquinas produzem riqueza. Mas não distribuem justiça espontaneamente.

A história econômica da humanidade talvez seja, em larga medida, a história desse mal-entendido recorrente.

A Revolução Industrial multiplicou a produção de bens — e simultaneamente produziu bairros operários miseráveis, exploração infantil e jornadas de trabalho que fariam um estivador romano pedir moderação. O progresso técnico nunca caminhou sozinho. Precisou sempre ser domesticado por instituições jurídicas, pressão política, sindicatos, legislação social e mecanismos redistributivos.

A Previdência Social nasce exatamente desse processo civilizatório.

Não por sentimentalismo abstrato, mas porque sociedades perceberam algo profundamente incômodo: a liberdade econômica irrestrita produz eficiência admirável e tragédias igualmente admiráveis.

O trabalhador envelhece. O corpo adoece. A capacidade laboral declina. A invalidez chega sem consultar planejamento financeiro. A morte conserva o péssimo hábito de permanecer democrática.

Foi para enfrentar esses riscos sociais que o Estado Social surgiu. E foi precisamente por isso que a proteção previdenciária deixou de ser caridade privada para tornar-se dever institucional. No caso brasileiro, a Constituição de 1988 elevou essa proteção ao patamar de fundamento estrutural da ordem social, estabelecendo, em seu art. 194, que a Seguridade Social compreende um conjunto integrado de ações destinadas a assegurar os direitos relativos à saúde, à previdência e à assistência social. Não se trata, portanto, de benevolência estatal episódica, mas de compromisso constitucional com a dignidade humana e com a solidariedade intergeracional.

Nesse ponto, o discurso futurista de Musk encontra o Brasil — e o choque é quase físico.

Em um país onde parcela expressiva da população não possui reserva financeira suficiente sequer para enfrentar emergências imediatas, falar em “desnecessidade futura de poupança” soa menos como previsão econômica e mais como ficção científica importada sem adaptação tropical. Para milhões de brasileiros, planejamento financeiro não representa estratégia sofisticada de acumulação patrimonial; representa tentativa desesperada de impedir que a velhice se converta em indigência.

Há algo de profundamente revelador nesse contraste.

Os profetas tecnológicos imaginam um mundo em que o trabalho perderá centralidade. Já boa parte da população brasileira continua tentando descobrir como sobreviver precisamente porque o trabalho que possui não basta para construir qualquer estabilidade futura.

Eis a questão decisiva: o desafio do Brasil não é excesso de proteção social. O desafio do Brasil é insuficiência histórica de inclusão econômica consistente.

A informalidade brasileira não nasceu com aplicativos. Ela apenas ganhou interface mais elegante. O entregador monitorado por algoritmo talvez utilize smartphone de última geração; continua, porém, submetido à velha insegurança social latino-americana — agora com geolocalização em tempo real.

Não deixa de ser um avanço estético considerável.

Além disso, há um aspecto frequentemente ignorado pelos entusiastas do “mundo pós-trabalho”: o trabalho não organiza apenas a economia. Organiza também a experiência psicológica da existência.

É pelo trabalho que muitos indivíduos:


  • constroem identidade;

  • desenvolvem pertencimento;

  • estabelecem rotinas;

  • criam vínculos;

  • percebem utilidade social.


Uma civilização integralmente automatizada talvez resolvesse a questão da produção material — embora isso ainda esteja longe de demonstrado —, mas abriria outro desafio monumental: o desafio do sentido.

O que fará o ser humano quando já não for economicamente necessário?

A pergunta parece filosófica. Na verdade, é previdenciária, política e civilizatória.

Porque sistemas de proteção social não tratam apenas de renda. Tratam da administração institucional da vulnerabilidade humana.

E aqui talvez resida o ponto mais curioso de todo esse debate: quanto mais avançada tecnologicamente se torna a sociedade, maior tende a ser sua necessidade de mecanismos sofisticados de proteção coletiva. A automação não elimina os riscos sociais. Frequentemente apenas os desloca.

O robô não envelhece. Mas o proprietário do robô envelhece. E também envelhece o homem que perdeu o emprego para o robô.

No fim das contas, talvez a grande ingenuidade de parte do futurismo tecnológico esteja em imaginar que abundância produtiva equivale automaticamente a harmonia social. A humanidade já produz alimentos suficientes para todos. Nem por isso aboliu a fome. Produz riqueza em escala inédita. Nem por isso superou desigualdades obscenas.

A máquina resolveu parcialmente o dilema da escassez. Nunca resolveu, por si só, a questão da distribuição.

Por isso, a Previdência Social dificilmente desaparecerá. O que provavelmente desaparecerá é sua antiga forma exclusiva de financiamento baseada no emprego formal contínuo. O futuro talvez exija:


  • tributação sobre ganhos automatizados;

  • novos mecanismos distributivos;

  • renda básica parcial;

  • fundos tecnológicos públicos;

  • e expansão de modelos híbridos de proteção social.


Mas isso exigirá política. E política continua sendo precisamente aquilo que os evangelistas da automação costumam subestimar.

Talvez porque algoritmos sejam excelentes para calcular trajetos, mas ainda bastante limitados para resolver dilemas morais.

No Brasil, portanto, a discussão sobre inteligência artificial e “fim do trabalho” deveria começar com certa prudência antropológica. Antes de imaginar um paraíso automatizado, talvez fosse razoável construir uma sociedade em que décadas de trabalho permitam ao cidadão envelhecer sem medo.

Civilizações verdadeiramente avançadas não são as que produzem robôs capazes de substituir trabalhadores; são as que conseguem impedir que os trabalhadores substituídos sejam tratados como peças descartáveis.

 
 
 

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